A Paixão de Imembuí, doada à Apusm

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Luiz Gonzaga Binato de Almeida

Arquiteto e produtor cultural

A trilha dessa pintura de Eduardo Trevisan inicia no salão da Casa de Chá instalada na sobreloja da Galeria do Comércio, no começo dos 1960. Em breve tempo, a Casa fechou; ao empresário, sobraram dívidas. Dr. Máximo Trevisan, advogado do locador do imóvel, recebeu essa obra a título de honorários. O óleo sobre madeira de 162 cm x 252 cm luziu por décadas em seu escritório, compartilhado com os colegas Waldemar Kümmel e Névio Bellé Cancian. Ao encerrarem a estrutura física da banca, no final de 2020 – ano do centenário de nascimento do autor do painel -, os Drs. Maximo, Névio e Waldemar (falecido, foi representado pelo filho, advogado Carlos Daniel) doam essa obra à Associação dos Professores Universitários de Santa Maria (Apusm): bela forma de multiplicarem os olhares sobre a arte. Desde 18 de maio A Paixão de Imembuí orna – e valoriza – o átrio da sede dessa entidade.

Santa Maria viveu casas de chá. Destaques: além da já citada, a pequena Bombonnière e Casa de Chá Continental, do Sr. Bernardo e esposa, na segunda quadra da Bozano, abaixo do antigo Cinema Imperial, agora loja Eny Infanto-juvenil; depois, a de maior requinte, no Edifício Taperinha, concluído em 1959.

O “conto indígena” Imembuí, única obra ficcional de Cezimbra Jacques (1912), inspirou Eduardo Trevisan desde o Centenário da Emancipação de Santa Maria, em 1958. Sobre o tema, ele desenha cenas para ilustrações e para carros alegóricos do desfile de 17 de maio daquele ano; projeta em 1960 o painel (não executado) A Lenda de Imembuí, para o Centro Cultural da cidade, quando ele era diretor deste órgão. Dos 1970, legou painel homônimo para confecção com pastilhas ou mosaico.

A pintura acima revela o afago da índia minuana Imembuí no bandeirante prisioneiro Rodrigues. Após esse toque de amor, ele é liberto. Casam-se, e os filhos herdam sangue do colonizador e da nativa das águas do Taimbé, berço de Santa Maria.

O oportuno livro Eduardo Trevisan: memória, vida e arte, escrito pelo pintor Flamarion Trevisan, filho do artista, reúne rico material iconográfico e textual.  Nele encontrei esclarecedora descrição desse painel, uma fotografia de Eduardo a pintá-lo e dois estudos preliminares. Para mim, admirador desse fecundo  artista, fundador e, por 16 anos, mestre de pintura e desenho na Escola de Belas Artes daqui, a obra publicada em 2020 pela Pró-Reitoria de Extensão da UFSM é fonte de fruição e estudo.

Extraio palavras de Flamarion sobre o painel: “É um trabalho que se torna extremamente leve, iluminado e agradável ao olhar, e que tranquiliza o observador com a idílica cena, que desta maneira transmite o caráter e o envolvimento do momento em que acontece e envolve o admirador no clima emocional, calmo, repousante e natural da emoção ou dos sentimentos dos personagens e da placidez do ambiente na paisagem”.

Considero clímax da obra de Eduardo o mural A Lenda de Imembuí, pintado em 1976 no salão do primeiro andar da Reitoria da UFSM, trabalho restaurado em 2020 (Arquitetura: suporte das artes plásticas).

A cidade tem nessa lenda o mito fundador. Reverenciam o mito: a Rádio, o edifício 1.305 do Calçadão, uma rua do bairro do Presidente João Goulart, todos denominados Imembuí; também os Hotéis Morotin (significa “branco”, em tupi: Rodrigues adotou esse apelido). Em 2008, o musical Imembuí, escrito por Orlando Fonseca, com músicas de Otávio Segala, marcou os 150 anos do Município, um   evento remontado em 2018.

Espero aqui assistir ao bailado Imembuí, composição para piano de Natho Henn (Quaraí,1901 – Porto Alegre,1958), com 12 cenas. Aos coreógrafos interessados nos contos deste chão, ofereço a partitura.

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