VIDA SOLITÁRIA E SOZINHÊS

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Prof. Noli Brum de Lima
Professor aposentado da UFSM. Foi o primeiro presidente da APUSM. Durante 14 anos viveu sozinho num pequeno estúdio parisiense e agora vive na ilha de Rhodes, na Grécia.

INTRODUÇÃO

  1. O texto a seguir faz parte de um esforço maior onde reúno lembranças de mim mesmo, dúvidas existenciais e provisórias conclusões. O faço com o objetivo de entender-me melhor. Para isso estou organizando uma espécie de autobiografia intelectual à qual chamo “Solilóquios”, ao me lembrar de Santo Agostinho. Escrevo todos os dias, mas sei que não concluirei esta obra em vida (nem depois de morto). Acentue-se que meus Solilóquios não se destinam à publicação. Por isso, não sigo as regras do método científico. Isto é, não faço pesquisa bibliográfica, mas apenas em minha memória e não cito todas as fontes nas quais me instruí, mas cujas ideias faço minhas por acreditar nelas.
  2. O termo sozinhês foi inventado por um amigo, o professor Ênio Tonini. Refere-se à “boa solidão”, a qual faz parte de nossa natureza e é prazerosa. Mas a “má solidão”, habitada pela amargura e desamparo, é detestada. Ao contrário do celibato e do casamento, que são “estado civil”, a sozinhês é “estado de espírito”. Nela não há tristeza.

Um dos fatos de meu viver, enigmático para a maioria das pessoas –  e, nalguns aspectos, também para mim – é que vivo só, por opção. Como entender isso? Tratar-se-ia de um traço de personalidade, ou desvio? De uma patologia? Ou, talvez, de experiências negativas que teria me desiludido e marcado? Alguma decepção ou descaminho? Ou simples preferência?

Para tentar esclarecer-me sobre esse modo de viver, a seguir, farei algumas precisões sobre minha vida solitária que, por ser opcional e prazerosa, chamo “Sozinhês”. Assim, a distingo da má solidão.

O QUE É SOLIDÃO?

Segundo André Comte-Sponville:  “Solidão é uma circunstância de nossa natureza. Isto quer dizer que todos os humanos são solitários. Ela acontece não porque não nos relacionemos, mas porque nossas relações não são capazes de abolir a solidão básica do homem. Nossa solidão decorre do fato de sermos os únicos a ser o que somos e a viver o que vivemos (…) ninguém é como eu. Ninguém vive como eu e ninguém pode amar ou morrer no meu lugar. Não porque se deva nascer e morrer isolado, mas porque ninguém morre, nem nasce no meu lugar. Essa é a razão pela qual o isolamento é a exceção; solidão, a regra”.

Essa definição sintetiza a conclusão existencial à qual eu já havia chegado na minha infância e adolescência, época em que eu era gago e, por isso, tímido e envergonhado, me escondia. Por isso, para evitar confusão, substituo a palavra solidão, que é carregada de melancolia, por sozinhês, que é livre. Ela é o recanto de minh‘alma onde desejo estar. A sozinhês é minha Passárgada. É quase toda minha vida.

Daí minha surpresa ao que ler que, para Theresa May, ex-Primeira Ministra do Reino Unido, a solidão é “a mais triste realidade da vida moderna”. Por isso, quando no poder, criou uma espécie de Ministério da Solidão para combater esse mal. Se seguirmos essa linha de raciocínio, para tratar outros males, deveríamos criar outros ministérios como o do medo e insegurança, o da melancolia; o da baixa estima; o das dúvidas; o do mal de amor, etc.

Para precisar um pouco mais o meu ponto de vista, distingo solidão de isolamento.

Ainda o Sponville: “Estar isolado é estar separado dos outros: sem relações, sem amigos, sem amores. É um estado anormal e quase sempre doloroso ou mortal para o ser humano”. Daí, a necessidade de estabelecer contatos. E, nessa busca, verificou-se que em 2006, 18% da população mundial estava ligada à internet; em 2009, 25%; em 2014, 41%! E, pergunto eu, qual poderá vir a ser sua a percentagem em 2021, 30 ou 50?

Nessa linha de raciocínio, um cientista político, no século XX, previu: “Em breve, a conectividade permanente não será apenas total. Será totalitária”.

Deve-se notar que a conectividade permanente não leva em conta o preço que pagamos pela perda da solidão. Para Michael Harris, o prejuízo é triplo: “Sem uma boa dose de solidão, perdemos o tempo de quietude no qual as melhores e mais inesperadas ideias acontecem. Por outro lado, nos tornamos incapazes de entender o que somos e o que não somos. E, por fim, nem sequer ganhamos o que de mais importante podemos oferecer aos outros: uma disponibilidade genuína e limpa de ruído. Por isso, deveríamos “aprender a viver com a solidão e a habitá-la com os instrumentos culturais que estão ao nosso alcance, como a busca da beleza na arte e na natureza, na música e literatura, na fruição da memória e do pensamento, etc. Deveríamos, também, criar laços de amizade com ela de modo a poder tratá-la com intimidade, como tratamos nossos melhores amigos”.

Segundo André Compte-Sponville, há vários tipos de solidão: “a das pessoas que não se sentem amadas, compreendidas, úteis e que precisam do apoio e aprovação dos demais; a dos orgulhosos, que desprezam os outros, o mundo e a época em que vivem. Por isso se retiram. É a solidão dos misantropos. E há a solidão dos tímidos que buscam esconderijo na privacidade; há também a solidão dos queixosos e depressivos que provocam seu isolamento pelo mau humor e agressividade. São casos de solidão psicológica para os quais há tratamento e possibilidade de cura” …

“Mas não há cura para a solidão metafísica. Nem remédio, pois não existe o seu contrário. Por que metafísica? Porque mesmo estando no meio da multidão, cercado por amigos e familiares, somos sós. Ocorre que, para toda forma de isolamento, há soluções. Mas, por inútil, não se deveria nem pensar em abolir a solidão essencial”.

Sobre esse mesmo assunto, veja-se o que disse Jacqueline Kelen, in “L’esprit de solitude” (Albin Michel, Paris, 2005, pg. 23): “Desejar abafar ou curar o sentimento de solidão é impedir um ser humano de ter consciência de si, de fazer alguma coisa de sua vida e crescer”.

Como sabemos, ninguém ensina ninguém a ser só. Mas todos tentam ensinar o contrário, isto é, a viver sempre em grupos. Veja-se a educação dispensada nas famílias e escolas: esforça-se para nunca deixar uma criança sozinha, face a ela mesma. Ela é induzida a se relacionar sempre, a brincar sempre, seja com vizinhos ou parentes, seja num clube, equipe esportiva, aulas disso ou daquilo. Faz-se isso em nome da comunicação e da integração, tidas como valores indiscutíveis. O resultado é que nos tornamos dependentes uns dos outros, como muitos idosos e/ou pessoas portadoras de deficiência o são da bengala. Mais tarde, por ocasião de rupturas, perdas, doença, aposentadoria ou luto, constatamos nossa incapacidade de resolver nossos problemas de forma autônoma.

Hoje em dia, mesmo no ventre materno, o feto não fica mais em paz: sempre vem alguém mexer com ele: para examiná-lo, avaliar seu crescimento, descobrir seu sexo e mostrá-lo numa tela. Claro que é com boas intenções que se faz isto, mas que é invasivo, é! Mais tarde, também com boas intenções, outras pessoas tentarão invadir nossa intimidade…

Quando a criança cresce, seus pais se inquietam se ela gosta de ficar só ou se prefere a companhia dos livros aos grupos. Por isso, é forçada a trocar a vida interior, profunda, pela vida grupal.

Ainda segundo Jacqueline Kelen, sem autonomia, o jovem ou adulto que estiver só, estará sempre procurando relacionamentos. E se não continuar morando com os pais, viverá com alguém ou casará, pois aprendeu que “não é bom que o homem esteja só”. É por isso que a exclusão é considerada o maior perigo. E a moderna obsessão pelo trabalho, tornou-se a única razão de viver. Daí, a terrível situação dos desempregados: por um lado, sofrem dificuldades financeiras e, por isso, perdem sua autonomia. Por outro, sentem-se marginalizados e inúteis, como se fossem delinquentes.

“Ora, o isolamento pode ser um fato de ordem geográfico, sociológico e/ou econômico que pode ser reparado. Mas há pessoas que preferem estar sós, sem serem antissociais ou misantropos. São pessoas seletivas: não amam todos os outros, mas apreciam uns mais do que outros. Têm o senso da amizade. Preferem o encontro pessoal às relações superficiais num grupo ou numa comunidade”.

No entanto, na sozinhês, a pessoa pode dar-se ao luxo de ler, refletir e procurar amadurecer seus sentimentos e ideias, em paz. O “bom solitário” não é invasivo, nem incômodo.

Quanto a mim, sou sozinho, não apenas por natureza e história pessoal, mas também por opção. Vivo só, mas não sou isolado e não sofro minha situação. Pelo contrário: me sinto mais livre, mais autêntico. Talvez se possa dizer que eu não sofro de solidão, sofro de multidão!

Durante 14 anos vivi minha sozinhês num pequeno estúdio parisiense. Agora, a vivo na ilha de Rhodes, onde posso ser eu mesmo sem me esforçar para fazer amigos, nem para mantê-los. Não preciso exibir qualidades nem as inventar. E não preciso exercitar-me na arte de esconder meus defeitos. Desde criança sou assim: no começo, como autodefesa, por causa da gagueira. Depois, por hábito e gosto.

Uma das lembranças mais poderosas que tenho de minha infância é que me escondia. Mas não sabia que o nome disso é solidão. Não sabia tampouco que essa palavra vem carregada de tristeza e amargura. Escondia-me para fantasiar sem ser interrompido e fazer nada sem pressa. E também porque era gago e os outros me intimidavam.

Bem, invertendo a ordem, talvez fique mais verdadeiro: os outros me intimidavam porque eram mais fortes, mais sabidos, não gaguejavam e enticavam comigo. E eu era gago e tinha vergonha. Por isso me escondia.

Em psicanálise, numa situação destas, fala-se em introvertimento ou ensimesmamento. Mas não era isso (ou só isso) que acontecia comigo. Procurava ficar só, mas sempre sabia onde estavam os outros, principalmente o Newton, meu irmão mais velho e protetor, e minha Mãe. E eles sabiam onde eu estava, mas respeitavam meu desejo de ficar só. Acabei gostando dessa situação, até porque podia juntar-me a eles a qualquer momento.

Desde aquela época, mesmo sem saber da existência de Montaigne, seguia um de seus conselhos:

“É preciso reservar um espaço só nosso, franco, no qual possamos viver nossa verdadeira liberdade. Um espaço que seja nosso principal lugar de repouso”.

A solidão tem sido minha Cidadela. Foi por isso que mudei seu nome para “sozinhês” e lhe atribuí características próprias, diferentes da solidão. Esta é imposta, seja pelo capital genético ou devido a uma fatalidade sociológica, geográfica ou econômica. Aquela, como a concebo, é opcional e reversível.

“A solidão assusta uma alma de vinte anos”, diz Célimène ao Misantropo. Concordo, mas acrescento: assusta em todas as idades. Já a sozinhês, não. Ela atrai, conforta, seduz. O solitário, ao ser rejeitado, sofre, mas o “sozinho”, ao contrário, volta às suas raízes. A solidão separa (dos outros). A sozinhês, religa (consigo mesmo) sem, necessariamente, separar dos outros. Os pares da solidão são a melancolia e a depressão. O par da sozinhês é o conforto espiritual.

Talvez se possa dizer que por circunstâncias familiares e índole, eu tenha sido poupado da tristeza. Por isso, como Montaigne, afirmo:

  1. “Sou um dos mais isentos desta paixão (a tristeza). Não a amo nem a estimo ainda que o mundo tenha como natural honrá-la de uma maneira particular. Vestem-na de sabedoria, virtude e consciência. No entanto, para mim, a tristeza não passa de um ornamento monstruoso e idiota”.
  2. “… na tristeza, há uma ponta de prazer. Mas eu penso que há também um consentimento e, mais do que isso, há um desígnio em se alimentar de melancolia” (…)
  3. “Ao expor nossos males, o que procuramos é despertar a compaixão, o luto e as lágrimas dos outros. Quanto a mim, penso que se deveria mostrar a alegria, quando verdadeira, mas guardar em seu íntimo, tanto quanto possível, a tristeza”.
  4. “Fujo das personalidades tristes e dos rabugentos como da peste”. (Eu, Noli, fujo também dos brigões porque são um convite à raiva e ao confronto. Sou quieto, mas não emburrado. Procuro a solidão por puro prazer. Agora, com o nome de Sozinhês, ela é minha melhor amiga.

Talvez, por fatalidade, na terceira idade, acabei voltando à quietude dos primeiros tempos. No meu caso, penso que de uma forma inconsciente, mas tenaz, eu tenha inventado a vida que levo desde 2004 quando parti, de mala e cuia, do Rio de Janeiro para Paris onde vivi até o mês de setembro de 2018. Dessa data em diante, vivo na ilha de Rhodes, Grécia.

O parágrafo anterior me faz lembrar de Petrarca em “A Vida Solitária”, onde ele afirma que a solidão é tríplice: a dos lugares, a do tempo e a da alma: há lugares solitários, há momentos solitários e há almas que, mesmo acompanhadas, são solitárias.

Gostaria apenas de acrescentar que existem lugares e momentos que favorecem a vida solitária. Mas a sozinhês, como a concebo, não depende de um lugar nem de um tempo especial: resulta de um traço de caráter e/ou aprendizado. Pessoas melancólicas e tristes, serão tristes e melancólicas em qualquer lugar, a qualquer momento! O mesmo acontece com os que amam a sozinhês: mesmo no meio da multidão, sabem encontrar-se sós.

Em Paris, passei a viver na minha Cidadela em tempo integral. Mas em Santa Rosa, onde nasci, sempre havia alguém querendo me tirar do esconderijo. Eu resistia. Mas era bom saber que podia sair se quisesse. Situação parecida à de hoje: vivo em Rhodes por opção, mas posso sair a qualquer momento. Depende das circunstâncias. Se a situação mudar, me mudo.


A SOZINHÊZ DO FILÓSOFO …

… não é afetiva: é intelectual. Resulta de sua opção pela busca da lucidez: o que ele deseja é compreender o mundo e a si mesmo.

Para mim (e Albert Camus) “O conhecimento da verdade não é uma virtude, mas uma paixão”.

No filósofo, esta paixão é tão poderosa que se lhe fosse dada a possibilidade de optar entre felicidade e verdade, optaria sempre pela última, pois “uma verdadeira infelicidade é preferível uma falsa alegria”!

Assim como o poeta é um fingidor (“chega fingir a dor que deveras sente”), o filósofo é um questionador (questiona até coisas nas quais acredita): questiona o mundo, as civilizações, os hábitos, os costumes, a organização social e política, a ética e a moral, a justiça, etc. E questiona, também, as verdades estabelecidas, o saber popular, os demais filósofos e os entendidos em todas as áreas do conhecimento. O resultado de suas reflexões será só dele, pois ninguém pode refletir em seu lugar. Daí que sua cosmovisão é solitária.

Desejo, agora, fazer uma distinção entre dois tipos de pensadores: Num lado temos os artistas e filósofos da linha platônica, os “idealistas” e, de outro, os cientistas e filósofos da linha aristotélica, também chamados de “realistas”: os primeiros, são criadores, os segundos, descobridores.

Por exemplo, fala-se na filosofia de Platão, de Spinoza, de Kant, Hegel ou de Heidegger; fala-se também no Moisés, de Michelangelo, no Pensador, de Rodin, na Divina Comédia, de Dante ou na Quinta Sinfonia de Beethoven, sem jamais omitir seus nomes. Ocorre que se esses gênios da criação não tivessem criado suas obras, ninguém as teria criado em seus lugares. Mas, se Galileu não tivesse aberto o caminho para a ciência moderna, se Newton não tivesse descoberto a lei da Gravitação Universal e se Einstein não tivesse descoberto a Lei da Relatividade, outros cientistas já o teriam feito em seus lugares. E, o que é significativo, com os mesmos princípios, dados e relações. Acontece que o artista cria o que não existe, enquanto que o cientista desvenda o que já existia, mas estava escondido. O cientista, pois, atua como uma espécie de detetive da natureza. O psicólogo como detetive da alma. O sociólogo, como detetive das sociedades

Mas os filósofos – ao menos os que seguem o método aristotélico de filosofar – voltam seu olhar para realidade tal qual ela é percebida pelos sentidos. Poderiam ser chamados de detetives do mundo real. Já os idealistas, da linhagem platônica, concebem o mundo a partir das ideias que já possuem sobre ela. Suas cosmovisões, pois, são criações muito particulares. São pessoais.

E daí a dificuldade que tenho em apresentar-me como filósofo, pois não criei uma cosmovisão particular e nem sigo Aristóteles, (apesar de admirá-lo). Mas penso que sua visão de mundo é um tanto ingênua: ele acreditava piamente no testemunho dos sentidos. Mas, pergunto: E se nossos sentidos estiverem enganados ou a enganarem-se a si mesmos, movidos por forças inconscientes?

Kant teve esta percepção. Para ele, não conhecemos a realidade como ela é nela mesma, em sua intimidade, a qual chamou de “noumeno”, mas como elas são percebidas pelos nossos sentidos. Isto é, conhecemos apenas os “fenômenos” ou a aparência externa da realidade. E o fazemos conforme a capacidade de nossos sentidos. Exemplos: os olhos de muitos animais enxergam à noite. Nós não. E os olhos dos falcões enxergam suas presas de muito mais longe do que nós. Os ouvidos e narizes de muitos animais são muito mais sensíveis de que os nossos, etc.

Daí que as cosmovisões dos filósofos (ao menos as dos idealistas) e as criações dos artistas são filhas do silêncio, da noite e da solidão.

Mas as cosmovisões dos filósofos realistas resultam de observações experimentais, nas quais acreditam. O problema é que seguidamente nos enganamos. O espaço sideral é uma prova disso: não é o Sol que gira ao redor da Terra, mas é o contrário do que acontece. A Terra, por sua vez, não é plana, como os humanos pensaram durante muito tempo, mas redonda! No entanto, os humanos acreditaram nesse engano durante milênios!

É aí que entra a razão humana: ela tem condições de desvendar e reparar muitos de nossos erros … não todos, pois “há mais coisas entre o Céu e a Terra do que crê nossa vã filosofia”, como é o caso como do Covid-19.

Segundo Heisenberg, Prêmio Nobel de Física, os cientistas formulam suas teorias de modo diferente da maneira platônica de filosofar, a qual é solitária. Mas as descobertas dos cientistas resultam de grandes debates.

Na introdução à obra “A Parte e o Todo”, Heisenberg afirma: “São as discussões que formam a substância deste livro. Seu objetivo é levar o leitor a compreender como se cria a ciência no decorrer das discussões”.

Quanto aos filósofos, não há como imaginar um Aristóteles ou um Spinoza convidando amigos para debater os princípios da ética! Ou Kant oferecendo à análise de conhecidos sua “Crítica da Razão Pura”! Ou o solitário Descartes debatendo com a companheirada as regras do método! Ele mesmo afirmou: “Estando na Alemanha, no inverno, não tinha nenhuma conversação que me distraísse. Por isso permanecia o dia todo sozinho num quarto. E tinha todo o tempo para pensar”. Foi nessa ocasião que concebeu o “Discurso do Método”.

A solidão do filósofo, pois, decorre de sua opção de procurar a Verdade Universal, mesmo duvidando ou sabendo que não poderá atingi-la. É por isso que, segundo Epicuro, ele se distingue e se afasta do povo, que é motivado pelos valores do grupo e pelos imperativos coletivos. Mas, ao romper com as crenças e opiniões estabelecidas, o filósofo se isola e se torna um marginal. O que é confirmado por Parmênides, em “Sobre a Natureza”, onde narra o discurso de uma Deusa a um jovem que tinha se engajado no Caminho do Conhecimento:

“Alegra-te, jovem! Não foi um destino funesto que te enviou a percorrer o caminho do direito e da justiça, que é separado do caminho dos homens que só andam nos sendeiros batidos. Instrua-te a respeito de tudo: tanto o fundamento sem variação da verdade persuasiva, quanto às opiniões dos mortais, onde não se encontra convicção verdadeira”.

Segundo essa Deusa, “o caminho do filósofo é separado do caminho dos homens, de suas cidades, costumes e leis, pois a verdade não se confunde com crenças e opiniões coletivas”.

O problema, diz ela, é que a verdade filosófica não atravessa o muro das crenças dos homens coletivos, aos quais Heráclito chama, pejorativamente: “Os Numerosos”, que escutam sem compreender; são como surdos: presentes, são como ausentes”. Tudo funciona como se o filósofo nem tivesse falado. Daí sua solidão e o fato de que Boécio tenha morrido na prisão, Anaxágoras tenha sido exilado, vários filósofos tenham sido queimados vivos e Sócrates tenha sido condenado a beber cicuta. Por tudo isso, segundo Epicuro e Nietzsche, ao filósofo só resta esconder-se para escapar da agressividade dos ditos Numerosos.

Quanto a mim, não creio nisso, pois tenho boa opinião a respeito de meus poucos amigos e conhecidos. Não os chamo “numerosos” (até porque, de fato, são poucos). Mas os respeito e amo.

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