Guiomar Loureiro e suas inesquecíveis aulas de espanhol

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 Ceura Fernandes

Foi professora de três reitores da UFSM. Lecionou na FIC, Colégio Centenário e Manoel Ribas. Trabalhou na Secretaria de Educação do RS e integrou o Conselho Estadual de Educação.

Clóvis Lima, Tabajara Costa e Paulo Sarkis, reitores da UFSM e alunos do Maneco, com a pequena-grande mestra Guiomar Loureiro.

Aos 95 anos, faleceu no último dia 31 de julho, em Porto Alegre, a professora Guiomar Reis Loureiro. Casada com Carlos Loureiro, já falecido, ela teve nove filhos: Arize, Haidée, Luiz Antônio, Suzana, Maria Cristina, Lizete, Nelson (falecido), Carla, Daniel (falecido) e Eny. E deixou uma descendência de 23 netos e 24 bisnetos.

Nascida em Santa Maria, residiu por muito tempo no largo da Praça Saldanha Marinho, 33. Depois, até transferir-se para Porto Alegre, morou na Rua André Marques, 733.

Formada no curso de Letras, na época chamada “Área de Neolatinas”, pela PUC/RS, também cursou Direito na mesma universidade, onde colegas de turma lembram que ela foi brilhante, sempre com as melhores notas, especialmente nas provas orais.

Guiomar iniciou a lecionar, na década de 50, no Colégio Centenário, sendo a primeira professora de Espanhol da instituição. Foi também uma das pioneiras – onde deu aulas de Literatura Espanhola e participou da organização do primeiro vestibular – da Faculdade Imaculada Conceição – FIC, hoje UFN.

Mas foi no Colégio Manoel Ribas, nas décadas de 50 e 60, ao lado de grandes mestres da época que, pelo seu carisma e suas saudosas aulas de espanhol, Guiomar se tornou inesquecível.  No ‘Maneco’, ela presidiu comissão para selecionar alunos para o colégio. Lembrando que as vagas eram disputadas por muitos jovens que queriam estudar numa boa escola pública.

Sabendo de seu falecimento, o ex-aluno Luiz Cioccari assim se manifestou: “Nossa turma do Clássico 1961/1963 do Maneco sabe de cor a fábula La Caperucita, ou Chapeuzinho Vermelho, que figurou no repertório de aulas da professora. Em nossos encontros, era só alguém começar a recitar a fábula em espanhol e se formava um coro, evocação sentimental e respeitosa à querida professora. Ela estará ela sempre na memória da turma”.

Da mesma forma, o ex-reitor Paulo Sarkis lembra: “Nossa querida professora Guiomar deixou uma marca profunda em todos que tiveram o privilégio de estudar ou conviver com ela. Primeiro fui seu aluno de Espanhol. Depois, fomos colegas de magistério, sempre no Maneco. Ela tinha uma presença forte, tanto pelo calor humano em suas aulas, quanto pelo senso de humor. Suas magistrais interpretações de texto continuam a nos acompanhar como se fossem ontem. Os céus, certamente, estão mais alegres com sua chegada”.

Clóvis Lima, também ex-reitor da UFSM, como prova de que jamais esqueceu da mestra, esmerando-se na pronúncia, já sai recitando um texto em espanhol que aprendeu com ela. Depois de lembrar detalhes saudosos, conclui: “Era muito querida. Ensinava de uma forma alegre, agradável”.

Por ocasião de uma homenagem que, há algum tempo, lhe foi prestada na Câmara de Vereadores de Santa Maria, o ex-ministro Nelson Jobim, depois de lembrar do manual en español, de autoria de Idel Becker, adotado por ela, dirigindo-se à ex-professora, assim se manifestou: “Trata-se de uma grande personagem. Na década de 60, nas aulas noturnas do Clássico, com sua simpatia e alegria, nos encantava. Comprometida com o futuro de todos, formou uma geração que deve muito a ela”.

O saudoso professor de História Joel Abílio dos Santos, admirador do talento da mestra, na oportunidade em que ela era homenageada, afirmou: “A professora Guiomar foi uma referência, o paradigma da boa educação de uma época. Por isso deixa muita saudade entre seus alunos”.

A professora Plauta Irion lembra: “Ela descontraia a turma, com ela aprendíamos a cantar em espanhol ‘La Violetera’. Tinha habilidade na comunicação e respeitabilidade pelos alunos. Era como uma chama intensa. Se pudéssemos, começaríamos tudo de novo…”

Observação da professora Leila Ritzel: “Pensar numa mestra como Guiomar é prazeroso em todos os sentidos. Ela sabia o momento certo para um ensinamento. Ainda tenho nítida uma frase que ela escreveu no quadro ‘Atrás das nuvens há sempre um céu azul’”.

Da historiadora Therezinha Pires dos Santos:Quando lembro de Dona Guiomar, penso numa professora disponível, de sorriso e voz agradável. E quem foi seu aluno não esquece da famosa Caperucita. Lembro também do que ela escreveu num caderno de recordações: ‘Tudo termina. A vida finda. As vozes se calam. Só ficam os gestos que se eternizam. Quem ama dá. E quem não ama morre completamente”.

A professora, que era chamada carinhosamente de La Caperucita – referência à fábula Chapeuzinho Vermelho, que usava em suas aulas –, deixou marcas profundas em seus alunos. Também na lembrança de Marques Leonan, professor de jornalismo que se diz um modesto ex-aluno tentando representar os milhares que a adoravam: “Onze horas, manhã de sábado, aula de espanhol no Colégio Manoel Ribas. Uma pequena senhorinha, explodindo em pedagogia, nos forçava a repetir, com a língua entre os dentes, ‘so-le-dad’, ‘dig-ni-dad’, ‘a-mis-tad’ (tudo com ‘d’ mudo) sabendo que havia uma ‘ansiedad’ nos alunos para ainda aproveitarem um pouquinho do movimento, no centro, ao final daquela manhã ensolarada”.

Considerado também encantador de alunos, Leonan continua: “Pequeninha, com a língua entre os dentes, a professora Guiomar exigia uma pronúncia ‘española’ e não portenha, porque isso não combinaria com o falar do país europeu de origem. Não dá para imaginar que alguém a tenha esquecido, até porque tornou-se mais ativa, carinhosa, lúcida, atenta e com uma memória incomparável, mesmo quase centenária.  Como esquecê-la? Como não lembrar dos ‘Cumpleaños’?  Ela continuará conosco, porque ‘a nossa Guiomar Loureiro’ é eterna“.

Depois de ter lecionado no Maneco até 1964, a professora mudou-se para Porto Alegre, onde, por vários anos, trabalhou na Secretaria Estadual de Educação e integrou o Conselho Estadual de Educação. Mais tarde, passando a trabalhar na Casa Civil do Governo do Estado, onde permaneceu até a aposentadoria. 

Foi em 2006 que ‘La Caperucita’ veio a Santa Maria para reencontrar amigos, ex-colegas, ex-alunos e receber várias homenagens.

Numa dessas oportunidades, a professora Guiomar lembrou: “Alunos são como filhos. Filhos do coração. E nós, como professores, éramos respeitados e amávamos nossos alunos. Nunca fui trabalhadora da educação. Fui professora que assumi a profissão como missão. Como o jovem sonha, o professor também tem que ser um sonhador para buscar o melhor. Quem não sonha mais, não vive mais…”, conclui ela emocionada, e emocionando a todos.

Embora não tivéssemos o prazer de ter sido sua aluna, reconhecemos seu mérito de educadora e, no Memorial do Colégio Manoel Ribas, a recebemos para – juntos e em nome de um incontável número de alunos e colegas – homenageá-la ainda em vida. Manifestar-lhe gratidão pelo legado à educação de Santa Maria e do RS.

Ao agradecer a homenagem, ela escreveu para a posteridade: “Voltei hoje ao Colégio Manoel Ribas, o nosso sempre querido Maneco. E orgulhei-me e emocionei-me, como em poucos momentos de minha vida. Lá se vão 42 anos que o deixei. Não, não o deixei. Nem aos alunos. Levei-os comigo no fundo de minhas passagens posteriores, envoltos no meu afeto. Minha gratidão a todos que me proporcionaram essa linda vivência, em especial ao Joel, à Ceura, à Ruth, Leila, e à minha filha Arize. O Maneco cresceu em todos os sentidos. Estou feliz com isso. Profa. de Espanhol Guiomar dos Reis Loureiro, 25 de maio de 2006, 17h”.

 Aquele dia e o momento não foram escolhidos ao acaso. De acordo com os registros do próprio Memorial da escola, era exatamente a data e a hora em que, há 52 anos, ela havia assinado pela primeira vez o livro-ponto como professora daquela histórica instituição de ensino. Por isso foi recebida ao som de violino e aplausos, como numa viagem no tempo.

Quando estamos precisando de grandes decisões governamentais e boas referências educacionais para tirar nosso país dos últimos lugares no ranking mundial da educação, a professora Guiomar fica na memória como um paradigma, exemplo de educadora. No relativismo educacional em que vivemos, precisamos, cada vez mais, de ‘Caperucitas’ para, não só em espanhol, mas em todas as línguas e linguagens, encantar alunos. Despertar-lhes a paixão por ser e fazer o melhor de si para o mundo.

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