Falece professora Lia Achutti, aos 91 anos

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Lia em sua casa

Com pesar, a APUSM comunica o falecimento de sua associada, professora aposentada do Centro de Artes e Letras da UFSM Lia Maria Cechella Achutti. Ela estava internada no Hospital de Caridade há 18 dias devido a insuficiência cardíaca e mal de Parkinson, agravada recentemente por uma pneumonia, e veio a falecer às 23h40min desta quarta-feira (18). Ela havia completado 91 anos. Mesmo assim, pouco antes da internação, continuava trabalhando em seu ateliê, montando retalhos e bordados que formam seu lindos e floridos painéis.

A casa de Lia, decorada com seus lindos trabalhos coloridos

Formada em Artes Plásticas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1951, Lia foi professora fundadora da disciplina Iniciação às Artes Plásticas na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) em 1956. Irmã do médico Aloysio Achutti e da professora Maria Helena, Lia participou de dezenas de congressos e exposições, onde levou a arte de Santa Maria para vários estados brasileiros.

Professora Lia ministrou cursos e participou de exposições coletivas e individuais que marcaram época no coração do Rio Grande. Em seus trabalhos artísticos, ela valorizava as flores, jardins, formas e cores vivas. Em 1973, Lia foi agraciada com a Medalha do Mérito Universitário pela UFSM, instituição que a acolheu por mais de 30 anos e onde deixou seu legado como mestre em artes plásticas.

No cinquentenário da APUSM, em novembro de 2017, Lia participou de exposição coletiva com artistas locais

O corpo está sendo velado na capela B do Cemitério Santa Rita até o meio-dia desta quinta-feira (19). Depois, seguirá para a cidade de Santa Rosa, onde será cremado.

Em rede social, seu ex-aluno Jorge Zacarias de Oliveira escreveu: “Sempre impecavelmente vestida, educação refinada. Tinha o dom do ensino. Que a luz do senhor Jesus seja constante em sua caminhada. O céu ficará mais colorido com sua presença”.

Lia era filha de Bortolo Borin Achutti, santa-mariense nascido em 1898, filho do imigrante libanês Antonio Mansur Achutti e da italiana Magdalena Miolo Borin. Em 1927 Bortolo casou com Luiza Cechella e tiveram três filhos: a primogênita Lia Maria, nascida em 22/7/1928 e Maria Helena e o irmão Aloyzio Cechella Achutti.

O professor Luiz Gonzaga Binato escreveu, em artigo para o jornal da APUSM que “talvez o gosto pelas imagens e a índole para a pesquisa fotográfica, próprias de Bortolo Achutti, manifestaram-se na arte da filha Lia Maria e nas atividades do neto Luiz Eduardo Robinson Achutti, fotógrafo e antropólogo, professor do Instituto de Artes da UFRGS e doutor em antropologia visual”.

 

 

 

O jardim de Lia

Ceura Fernandes

Num desses finais de tarde de Feira do Livro, e tantas opções culturais na praça, saí de casa com algumas boas alternativas, sem muita certeza de onde ir. Mas, meu inconsciente, que me conhece mais que eu, vê o que pesa mais, e me dirige à Sala de Exposições Angelita Stefani, da Unifra. Pesou a gratidão e o reconhecimento a uma pessoa discreta que contribuiu para a cultura da cidade e que, apesar da idade, continua ativa.

Fui na abertura da exposição de Lia Achutti, a Dona Lia, antiga e elegante professora de uma inesquecível geração de mestres do Centro de Artes e Letras da UFSM. Chego quando inicia a apresentação de um vídeo em que a artista fala do seu trabalho e, por acréscimo, da vida. Atentos, assistíamos bebendo da sua sabedoria. Tranquila e humilde, mas altiva, ela, na verdade, fala de realização e da arte de viver. Ao final, emocionada, nos emociona também com seu exemplo vivo.

E, antes mesmo de ver o que estava à mostra, já teria valido a pena ter ido. Mas, acendem-se as luzes e, atendendo convite de Luiz Gonzaga Binato, o curador da exposição, o público começa a encantar-se. Como há muito não se via em vernissage, era uma alegria coletiva pela surpresa com o que estava ali. Era o encantamento com o ‘jardim’, singelo e bonito, feito por Lia. Usando panos, linhas e agulhas, ela tece uma arte bem elaborada, com detalhes, combinação de cores e formas que sensibiliza pela delicadeza. Ainda mais quando se relaciona a obra à idade da autora: 83 anos de sensibilidade.

Como qualquer produto da cultura, a arte é um espelho do seu tempo. Coerente com o ritmo que se vive, algumas manifestações artísticas têm sido, digamos, apressadas. E, muitas vezes, com esse nome, vê-se uma produção atropelada, discutível, em que, em detrimento da qualidade, confunde-se o diferente com o criativo, o impactante com o artístico. Mas, isso, naturalmente, faz parte do processo evolutivo. E é bom que tenhamos liberdade para expressar tudo, de patologias emolduradas a ensaios de aprendizes, até o refinamento da espiritualidade materializada em forma de arte.

Mas é nesse mesmo tempo de hoje que uma exposição com qualidade técnica e sedução estética, com simplicidade comovente e requinte de detalhes, é algo alentador. Ou seja, consola a dor que sentimos pela preocupação com a falta de cuidado e displicência de alguns segmentos, em diferentes esferas artísticas, da música à plástica.

Talvez fosse interessante que alguns apressados fazedores de arte percebessem a importância de combinar dedicação, persistência e humildade. O resultado pode ser qualidade e beleza, como dá pra perceber na exposição de Lia. Há quem diga, muito propriamente, que talento é mais dedicação que inspiração. Quando as duas coisas se juntam, o resultado quase sempre é ótimo. Em tudo que se faz. E quem lucra é a própria sociedade, somos nós mesmos que podemos nos deliciar com expressões de qualidade. Mas, o tempo é o melhor crítico. Ele reconhece e aplaude, de geração para geração, o que permanece. O que sobreviverá a barreira dos anos, ou não.

Pois bem, estávamos lá, diante da exposição de Lia Achutti. E não era por educação ou boas maneiras que olhávamos para o resultado do seu trabalho. Olhávamos pelo prazer estético, e também ético, que provocava. A superposição de tecidos, cores e pontos surpreendem pela finesse como a própria finesse da autora. Uma arte simples e bonita – alguns trabalhos até diminutos – capaz de provocar admiração, de crianças até aos contemporâneos de Lia. Outro detalhe que chamou a atenção foi a adequação dos títulos à respectiva obra. ‘Perfeitos!’ dizia Juan Amoretti. E todos concordávamos com ele. Por que lá estávamos vários ex-alunos e colegas da professora-artista.

Sim, é possível que possamos estar tendo uma crise de saudosismo. Mas com prazer e sem constrangimento. Ignorando modismos, viva o bonito, o bem feito atemporal. Seja do estilo que for: clássico, moderno, pós-moderno, popular, contemporâneo, digital… Há um não sei quê que pode ser chamado de harmonia, equilíbrio, prazer estético ou coisa que o valha. O importante é que a arte fale por si, sem precisar de outros recursos, aportes de sustentação, para que toque nossa alma. Arte boa, seja do gênero que for, geralmente fica, ultrapassa o momento histórico. As outras, claro, têm lá também seu valor do momento. Mas, se não evoluírem, não resistem ao teste do tempo, não têm longevidade.

A pergunta que todos se faziam – e era um público seleto – é como Dona Lia, com seus belos 83 anos, consegue fazer o que faz da forma que faz. Esta é a arte maior: continuar ativa e produzindo, enquanto tantos da sua idade já desistiram de participar da vida. O seu exemplo de vitalidade e a beleza de seu trabalho é, também, um puxão de orelha pra essa meninada que está por aí sem saber o que fazer, fazendo qualquer coisa. Ou, o que é pior, gastando a vida com bobagens.

Valeu a escolha! Foi prazeroso ver o encanto delicado do Jardim de Panos e Linhas, feitos pelas mãos de Lia Achutti, lá no conjunto III da Unifra.

(Crônica publicada em maio de 2012, no jornal A Razão).

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