Nome dos pais: Herança nem sempre honrada por Eloisa Antunes Maciel

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Esse artigo é de inteira responsabilidade de seu autor, Eloisa Antunes Maciel.

(Foto: NewsLocker)

No início dos anos setenta, eu participava de um projeto de extensão universitária como professora convidada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrava um grupo que atuou no então Território Federal de Rondônia.

Como nossa estada naquele território era patrocinada pelo antigo Projeto Rondon, ocupávamos determinadas alas militares na capital do território, assumindo compromissos protocolares – sobre as quais eu já detinha determinadas referências por haver atuado em situações semelhantes em duas situações anteriores.

Um desses compromissos consistia do comparecimento diário à cerimônia de hasteamento do pavilhão nacional – rotina, esta, que obedecia a uma escala previamente estabelecida pelo nosso Coordenador – um veterano professor, profundo conhecedor dessas “práxis” desde anos anteriores à sua dedicação a projetos especiais em matéria de extensão universitária.

Entre várias situações que se constituíram motivo de estranhamento à minha pessoa, uma me chamou particularmente a atenção – pelo fato de se constituir em situação atípica em relação às que eu havia participado anteriormente.

Tratava-se de uma também atípica solenidade militar para a qual fomos “democraticamente” convocados.

O destaque desse evento consistia da expulsão de um soldado cujo comportamento até então fora exemplar, segundo informes preliminares… E os principais motivos pelos quais o referido soldado estava sendo excluído foram lidos (e repetidos) em alto e bom som, suscitando aplausos de (quase) todos os presentes.

Um detalhe dessa “sentença” levou-me a uma quase tartamudez.

O mencionar a filiação do expulsando, o “oficial do dia” enfatizou – e repetiu – os nomes dos pais do expulsando. Tive a impressão que o infeliz (agora ex-soldado) preferiria que o chão se abrisse aos seus pés e o “engolisse”, tal era o seu visível desconforto nessa ocasião.

Uma vez “sacramentada” a expulsão, com ritual triplamente repetido, o excluído aparentava marchar com falso garbo em direção a um cadafalso.

Situação deveras estranha, sem que esse ato fosse percebido como atípico, uma vez que a absoluta maioria dos presentes não denotava o menor sinal de estranhamento.

Meu desapontamento, no entanto, levou-me a considerações que, ao menos naquela época, decorria de uma indignação que não deveria – ou não poderia ser verbalizada – nem ao menos confidencialmente.

Ao longo daquele dia interroguei-me sobre o “peso” da enorme decepção sofrida pelos pais do soldado excluído; sobre a inevitável derrocada de seus sonhos em relação ao filho – supondo-se que esses pais tivessem alimentado ingenuamente a risonha esperança de uma carreira promissora para o filho ao sabê-lo integrante das fileiras do Exército Brasileiro – em tempo de glorificação das Forças Armadas.

Que digo? Somente ao longo daquele dia? Não, certamente. Na noite que se sucedeu ao inusitado, eu não conseguia conciliar o sono… E continuamente tendia a me interrogar sobre a imaginada decepção dos pais do ex-soldado frente à situação que havia culminado com aquela vexatória expulsão.

Teriam eles realmente merecido essa pecha?

Lamentavelmente, uma pergunta sem a devida resposta… Ao menos para mim.

Eloisa Antunes Maciel
Professora aposentada da UFSM, escreve poesias, contos e crônicas (além de artigo de cunho científico). Integra diversas entidades literárias e sócio-educativas no país, havendo participado de inúmeras antologias e obtido vários prêmios no país e alguns no exterior. Mantém publicações regulares em periódicos de divulgação literária.

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