Professor José Antonio Brenner resgata a história do primeiro automóvel em Santa Maria

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O primeiro automóvel em Santa Maria

JA Brenner

  Em 27 de março de 2015*, o amigo Marco Aurélio Birmann Pinto visitou-me, trazendo um precioso presente: o livro 50 Anos de Viagem – Trabalhos, Peripécias e Alegrias, 1972, de Francisco da Rocha Timm, conhecido como “Chicotim”.

   Em 272 páginas, o autor narra diversos episódios vividos durante cinco décadas de sua atividade como caixeiro-viajante.

    Na leitura, minha atenção foi logo voltada para o caso do primeiro automóvel em Santa Maria. “Chicotim” narra, com riqueza de detalhes, o inusitado acontecimento de um veículo automotor rodar pelas ruas da cidade, em 1908.

   O automóvel pertencia ao comerciante Justino Couto, que tinha sua residência e comércio em um prédio na esquina sudoeste da Rua Floriano Peixoto com a Avenida Ypiranga, atual Avenida Presidente Vargas. O ramo de sua casa comercial era o chamado “armazém de secos e molhados”, isto é, varejo de gêneros alimentícios sólidos e líquidos.

Dalton Couto, nascido em 25.12.1914, foi secretário geral da Câmara de Vereadores. Eleito suplente de vereador, assumiu o mandato (1960-63). Foi diretor da Rádio Medianeira (1960-65) e redator-chefe do gabinete do reitor da UFSM (1969-84). Ator amadaor, Dalton foi muito atuante na Escola de Teatro Leopoldo Fróes.

 Dalva Couto, nascida em 24.2.1919, casou com Werner Grau. O casal teve o filho Eros Roberto Grau, nascido em Santa Maria, em 19.8.1940. Ele formou-se em Direito em 1963 (Univ. Mackenzie) e teve brilhante carreira como jurista, professor e autor de livros publicados no Brasil, Itália e Espanha. Doutor Honoris Causa por universidades do Brasil, Argentina e França. Ministro do Supremo Tribunal Federal (2004-2010).

   Em memória de Justino Couto, foi denominada, em 1958, uma rua de Santa Maria, antes chamada Rua Dr. Osvaldo Cruz, transversal da Av. Presidente Vargas, quando ainda se chamava Av. Ypiranga.

   Sorte grande –  Em 1908, Justino Couto jogou na loteria e ganhou o primerio prêmio, a “sorte grande”. Naquela época, nenhum banco tinha filial em Santa Maria. As primeiras casas bancárias na cidade, instaladas em prédios alugados, na Primeira Quadra da Rua do Comércio, foram inauguradas em março de 1910: o Banco Nacional do Comércio, no dia 22, e o Banco da Província, no dia 28.

   Por essa razão, ele precisou tomar o trem e viajar a Porto Alegre, para receber o seu prêmio.

Justino Couto
Justino Couto

Na capital, Justino Couto se encantou com um automóvel Fiat, em exposição numa loja, e, tendo recebido um bom dinheiro, decidiu comprá-lo. O carro foi transportado por trem até Santa Maria, onde, segundo supôs “Chicotim”, foi deslocado por tração animal da estação ferroviária até a casa do proprietário, num percurso de quase dois quilômetros. Passando pelo centro da cidade, despertou grande curiosidade e expectativa para quando o automóvel fizesse o primeiro passeio pelas ruas, movido por seu motor de 30 HP e dirigido por seu proprietário.

Os preparativos para tal façanha, na casa de Justino, foram vistos por um menino, que passou a divulgar pela cidade o que estava por acontecer.

   Era um grande acontecimento na pequena Santa Maria, então com cerca de 10 mil habitantes. Mesmo em Porto Alegre os automóveis haviam começado a circular apenas no ano anterior.

   Assim, numa tranquila manhã santa-mariense, Justino Couto saiu de sua casa dirigindo o seu Fiat pela Rua Ypiranga, hoje Pinheiro Machado, entrando na Rua do Acampamento em direção ao centro.

   Após percorrer a Rua do Acampamento, Justino entrou na Primeira Quadra da Rua do Comércio, hoje calçadão da Rua Dr. Bozano, e seguiu descendo a rua.

   Ao longo desse percurso, o veículo, com seu estrepitoso motor, causou admiração e espanto às pessoas, e espavoriu os animais atrelados às carroças, carruagens e tílburis, assim como os que serviam de montaria. Saíram em disparada, e os condutores, cocheiros e cavaleiros mal conseguiram contê-los, precisando entrar nas ruas transversais para acalmá-los. Felizmente, não houve graves danos físicos, apenas um jovem cavaleiro, derrubado de seu cavalo, teve leves ferimentos.

   Após a esquina com a Rua Duque de Caxias, em declive mais acentuado, o carro ganhou velocidade que não foi contida pelo motorista. Assim correu dois quarteirões até a Rua Barão do Triunfo.

   O acidente – No cruzamento da Rua do Comércio com a Barão do Triunfo, uma depressão no pavimento fez o motorista perder o controle do carro e colidir contra uma casa situada na esquina noroeste. A parede da casa era de alvenaria de tijolos assentados com barro e desabou. “Chicotim” ouviu dizer que os moradores foram tomados de grande pavor e que ali vivia “um paralítico que saiu em disparada”. (!?)

   O autor escreveu que esse foi o primeiro acidente de automóvel ocorrido no Estado do Rio Grande do Sul.

   O primeiro automóvel a rodar pela cidade e o acidente por ele provocado apavoraram os santa-marienses. Ao ouvir o ruído do motor, as pessoas que estavam nas ruas corriam assustadas, recolhendo as crianças às suas casas. Reclamavam providências das autoridades contra tal barbaridade, pois não se sentiam em segurança nem mesmo no interior dos prédios. Não havia mais tranquilidade na pequena Santa Maria.

   “Chicotim”, então com 15 anos, morava com sua avó na Rua Venâncio Aires, perto do Regimento Mallet. Quando saía para ir ao Colégio Distrital, era muito recomendado para evitar as ruas, por causa do temido automóvel. O colégio ficava na Rua Coronel Niederauer, onde hoje está o Instituto de Educação Olavo Bilac. Para não andar nas ruas, ele devia atravessar a coxilha onde, no ano seguinte, começariam as obras o quartel do 7º Regimento de Infantaria. Mas sua curiosidade o levava a percorrer parte da Rua do Comércio, na esperança de ver o Fiat.

De sua casa até o local do acidente, Justino Couto dirigiu seu Fiat num trajeto de cerca de 1.700 metros, marcados em amarelo no mapa. Na Rua Ypiranga ainda não havia calçamento, no trecho correspondente à atual Pinheiro Machado, ao longo da Praça Roque Gonsalez, então chamada Praça Ypiranga.

Depois seguiu pela Rua do Acampamento até a Praça Saldanha Marinho que havia apenas quatro anos que recebera sua primeira arborização e pavimentação no perímetro. então dobrou a esquina da Pharmacia Fischer, entrando na Primeira Quadra da Rua do Comércio – o atual Calçadão Salvador Isaia – e desceu até a esquina do acidente. As ruas do Acampamento e do Comércio eram calçadas com pedras irregulares de basalto. A casa de Justino Couto e a do acidente estão destacadas em vermelho.

O livro de Francisco da Rocha Timm tem apresentação de seu colega e amigo Mario Napoleão, que destaca a obra como o apanhado vivo de uma época, entre as décadas de 1910 e 1960.

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Fontes:

Acervo pessoal.

TIMM, Francisco da Rocha. 50 Anos de Viagem – Trabalhos, Peripécias e Alegrias. Porto Alegre: Gráfica Editora a Nação S. A.,1972.

Lei Municipal nº 632, de 23 de fevereiro de1958.

FIAT History till present – all the pictures together with and later on without date

José Nehrer – Planta da cidade de Santa Maria, 1902.

*Texto publicado originalmente, em 2015, no Jornal da APUSM

1 COMENTÁRIO

  1. O tempo “passa” e o homem continua o mesmo. Ganha um prêmio na loteria e compra um automóvel. Excelente texto.

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