J’accuse, por Eduardo Ayala

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J’accuse

 

Professor Eduardo Ayala

Para: José Nelso Gai, colega e generoso leitor.

Para iniciar este artigo, tomo por empréstimo o título da carta de Zola, publicado no jornal L’Aurore, sobre o afamado caso Dreyfus. Meu intuito é despojado, bastante insignificante se comparado com a acusação do célebre escritor francês. Nas linhas a seguir, por ser justo e necessário, relatarei um fato abjeto ocorrido comigo quando docente universitário. Digo que é Justo por ser um direito meu. E necessário, para que nenhuma ideologia se interponha jamais no processo dinâmico e incremental da ciência.

Certa vez — quando o PT já tinha a faca e o queijo nas mãos e a esquerda acadêmica  foie gras instalara, alucinada e na marra, o monotemático discurso marxistoide —, encaminhei à Comissão Editorial da Revista Educação da UFSM um estudo intitulado “Igualitarismo, diferenças individuais e pesquisa em educação: um breve ensaio”. Esperei e esperei pela sua publicação como Penélope aguardava a volta de Ulisses da Guerra de Troia. Senti um cheiro de atraso secular! Mas, por que em sucessivos números, não vinha a luz o meu trabalho? Dadas as circunstâncias, fiz o que toda criatura humana cordata tem de fazer. Me dirigi ao setor pertinente (Lapedoc) à procura do destino do meu ensaio. “Professor, acho que está em fase de revisão”, me disse o secretário fitando-me com seriedade burocrática impostada. Pensei que não era necessário insistir e, sem mais dizer, retirei-me fazendo um “ok” com o polegar.

Desde então tornei-me um habitué do Lapedoc e do eivado repertório de pretextos desse setor — cada vez que um deles me via chegando (um em especial), antes de aproximar-se e encarar-me, parecia que rosnava, que falava sozinho por entre dentes. Por vezes, cheguei até a imaginar que estava xingando minha mãe. Precisava de uma paciência mineral, de um santo ou de um Jó, pois eu já tinha chegado ao limiar da angústia, do desespero, do paroxismo…! Mesmo assim, sabia que não podia despejar o meu contido mal-estar naqueles moços que só acatavam ordens, ainda que esfarrapadas. Mas, quem eram os membros da referida Comissão Editorial e onde tinham enfiado o meu suado estudo? Depois de uma averiguação pessoal identifiquei os fátuos donos do mundo: todos namoravam o Lula e o PT!

Fui atrás da Presidente da Comissão Editorial — ela, aliás, tinha uma carga de trabalho que contrariava as recomendações da moderna ergonomia; o seu périplo era por demais tempestuoso e incessante. Busquei-a fogosamente, e nada! Caminhei pelos labirintos de Creta, de Borges, da minha transcendental paciência, porém, só a encontrava nos meus agitados sonhos. Até que numa inopinada manhã ouvi o “bálsamo” da sua voz: “Professor, professor, soube que estava me procurando!”; me olhava toda sorridente, festiva, melíflua demais. Relatei as razões pelas quais precisava falar com ela. “Na próxima reunião da Comissão Editorial trataremos especificamente do seu caso”, respondeu com uma vozinha aflautada. Agradeci com desesperança e um pé atrás.

Ignotas mãos largaram na minha caixa de correspondências do Departamento de Administração Escolar o memorando a seguir: “Vimos através deste, comunicar a Vossa Senhoria, que o seu trabalho intitulado: “Igualitarismo, diferenças individuais e pesquisa em educação: um breve ensaio. Após análise de consultor do Conselho Editorial da Revista (parecer em anexo) não foi recomendada para publicação.”. Neste único parágrafo, dividido em duas frases, há um intrometido “pontinho na mesma linha” entre o substantivo “ensaio” e a preposição “Após”; por que quebrar a sequência da narrativa tão grosseiramente? Pois é caro leitor, até parece que aquela Comissão desconhecia o metiê que lhe fora confiado…

Após receber essa comunicação, lembrei-me de um belíssimo canto poético a Tupac Amaru do peruano Alejandro Romualdo: “Quererão rompê-lo e não poderão rompê-lo / Quererão matá-lo e não poderão matá-lo…”. Não mesmo! Ato contínuo, solicitei ao órgão competente, e por escrito, as informações relativas à metodologia adotada para o aferimento do meu trabalho, bem como o nome do consultor. Não obtive sequer uma comiserada resposta. No Lapedoc, alguém que conhecia os conchavos da esquerda me informou em sigilo: “Professor, o parecerista foi fulano de tal”. Afff, logo quem meu Deus do céu! Um liberticida fanático de uma universidade paulista, um militante inveterado da esquerda ortodoxa pervertida, um marxista apodítico de ideias sem dialeticidade…. Aquela figura esmirradinha com o sorriso de Muttly?   Pois bem, não esqueci o ardil e aqui estou, mais de uma década depois, para denunciar/acusar esse rompante autoritarismo que se abatera sobre mim. Agora, é oportuno este provérbio: mais vale tarde do que nunca!

  • Amigo leitor, o meu modesto trabalho versava sobre essa quimera, essa fantasia delirante, essa espécie de utopia obrigatória conhecida como socialismo igualitário que jamais vi nos países comunistas que visitei. As “sagradas escrituras” de Marx, Engels, Lenin ou Gramsci estavam divorciadas totalmente e ad infinitum das realidades desses povos nos quais existe, isso sim, notórias diferenças de classes sociais. Por isso mesmo, acuso aos pseudo-docentes da esquerda caviar por pregar, seja por teimosia ou por ignorância, um conteúdo permeado por uma crença fraudulenta que se pretende redentora.
  • Eu acuso à Comissão Editorial e a esse único consultor/parecerista, quiçá escolhido a sabendas, naquela ocasião, pelo ato sectário e matreiro com que conduziram a avaliação do meu ensaio. Para essa aglomeração refratária de “lulistas” e operosos praticantes da endogamia ideológica, eu cometi um irremissível pecado: acreditar de boa-fé, como Howard Gardner ou Joseph Renzulli, que ninguém é igual a ninguém, apenas temos aptidões (inatas ou adquiridas) e interesses diferentes! Tais condutas mesquinhas e intrínsecas aos “marquicistas”, além de deploráveis, só desabonam a práxis pluralista que uma universidade, como a nossa, deve sempre preservar.
  • Acuso, finalmente, aos Departamentos do Centro de Educação, de outrora, que, sistematicamente, alhearam-se mantendo um sepulcral mutismo sobre meu caso. Voltaram-me as costas, roubaram-me o entusiasmo, senti-me ultrajado… E que conste: cada secretário de Departamento recebeu em mãos: a) um requerimento por mim assinado; b) uma cópia do parecer da consultoria; e c) a minha opinião documentada sobre os argumentos tipicamente discriminatórios e revanchistas do parecerista tarefeiro — ou acumpliciado?

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