Reflexões sobre violência, política e a virtude da mitezza, proposta por Norberto Bobbio – Um texto de Noli Brum de Lima

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Noli Brum de Lima – fundador da APUSM

 

Mitezza: doçura, suavidade.

O homem, dada sua espontânea curiosidade, promove o avanço contínuo do saber.

O filósofo, por sua vez, às vezes exacerba a curiosidade. Tanto é assim que se poderia defini-lo como alguém que não se contenta nem mesmo com respostas tidas como definitivas. Para ele, toda resposta é provisória. Por isso, está sempre revendo conceitos, como os de ética, cidadania, política, felicidade, etc. já propostos por filósofos que viveram quatro séculos antes de Cristo, como Sócrates (470-399), Platão (427-348) e Aristóteles (384-322). Este último, em sua “Ética à Nicômaco” analisa detidamente os conceitos de ética, política, cidadania e o natural desejo de felicidade. Depois deles, todos os filósofos que tratam dos mesmos assuntos, visitam os Mestres. Mas o cientista, tendo resolvido um problema – descoberto uma fórmula, por exemplo – segue em frente. Um físico, para ser bom físico, não precisa saber nada a respeito de Newton ou de Einstein, nem as circunstâncias nas quais eles fizeram suas descobertas. Mas o filósofo, jamais será um bom filósofo se não conhecer a História da Filosofia!

Com a ajuda do parágrafo acima, tento justificar minha tendência a sempre rever conceitos.

Não paro de me admirar com a mundo e as sociedades, em geral, e com a sociedade brasileira, em particular. Minha admiração – e estupefação – chegou à culminância com o escândalo do “Mensalão”, vejam só! Mas não é que depois veio a Lava-jato, muito maior? E agora temos as gravações feitas por um dos corruptores que tinha acesso à residência oficial do Presidente da República, inclusive depois das 11 horas da noite, com codinome previamente definido???!!! Decididamente, preciso rever alguns conceitos, como os de corrupção, violência, política, poder, democracia, Estado de Direito, etc.

Uma de minhas primeiras dúvidas, de adolescente, diz respeito aos dinossauros! Depois concluí que eles tiveram a força mas não a capacidade de aprender; tiveram o poder, mas não o de se adaptar aos novos tempos. Mas os mamíferos, por sua grande capacidade de adaptação, sobreviveram.

E nós, mamíferos brasileiros, o que estamos aprendendo com as terríveis revelações dos últimos tempos? Teremos a capacidade de promover as necessárias mudanças para uma vida mais pacífica e produtiva? Acredito que sim, pois penso que nosso povo é muito melhor do que nossas elites atuais! Disso, não tenho dúvida nenhuma.

Veja-se a violência, como a que foi praticada nessa noite, em Manchester. Como consequência, além dos mortos, feridos e demais danos, começam a surgir propostas de maior vigilância e policiamento. Mas há, também, um alerta: não podemos, por causa do terrorismo, abrir mão de nenhuma de nossas liberdades fundamentais, como a de ir e vir.

Mas não é exatamente isso que tem ocorrido no Brasil, há várias décadas? Quando eu morava no Rio, nos anos 90, li uma extensa reportagem a respeito de bares noturnos tradicionais que estavam fechando suas portas antes da meia-noite – alguns definitivamente – porque, antes dessa hora, os clientes se mandavam. Mas hoje, no Rio de Janeiro, não dá para sair de casa nem dia! (ontem, por exemplo, uma senhora foi assaltada em frente à sua casa, no Leblon). Mas onde foi parar a nossa liberdade de ir e vir? E como entender a expressão: “Cordialidade brasileira”? Falando nisso, como está a situação aí em Porto Alegre, Santa Maria, Salvador?

Parece que a violência também faz parte de nossa natureza! Senão, vejam esta afirmação de Freud: “o primeiro homem que, em vez de atirar uma pedra em alguém, insultou-o, inventou a civilização”. (Note-se que ele não nega a existência de outras características humanas, como a generosidade e a doçura, por exemplo).

Como cada um de nós pode constatar, a violência acontece em todos os lugares onde vivem os homens. Inclusive, nos mais refinados, ditos de nível superior, como as Universidades. Quanta pedrada verbal – filosófica, sociológica e psicológica – dita com sorriso nos lábios, ar superior e fina ironia, tive de ouvir (e engolir) em meus anos de magistério! Isso que, ao menos na minha avaliação, penso não ter sido um chefe perseguidor, mau professor, nem mau colega.

Daí a necessidade de uma organização social e política onde cada um venha a ser respeitado, justamente, por sua natureza humana: de zoon politikon. E daí a necessidade da Justiça.

Vejam este caso: A JBS comprou, sem desembolsar um único tostão, com dinheiro do BNDES, a juros baixíssimos ou sem juros, uma grande empresa norte-americana de abate de frangos, a Pilgrim’s Pride Company. Com isso, a JBS e o nosso BNDES garantiram empregos a centenas de trabalhadores americanos! Mas, pergunto eu, e os desempregados brasileiros?

Por outro lado, a quem pertence esse dinheiro que foi emprestado à JBS? Ao povo ou ao governo de plantão? E porque ele foi emprestado? Por solidariedade aos americanos ou por causa dos bons olhos dos Batistas e sólida argumentação? Ou por outros motivos?

Mas, pensando na defesa dos brasileiros pobres e oprimidos e na necessária solidariedade, como estão nossas escolas e hospitais? E quantas mortes acontecem, no Brasil, por falta de tratamento adequado?

Existiria violência maior ao povo brasileiro do que desviar nosso dinheiro para um povo distante e rico e para uma riquíssima família brasileira que mora na Quinta Avenida, em Nova York? Diante desse fato, qual deveria ser o tamanho da nossa indignação? (Acabei ficando nervoso. Continuarei amanhã, se Deus quiser).

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