“Praia Azul”, uma crônica de Celina Fleig Mayer

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Foto reprodução internet
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Celina Fleig Mayer

Era uma praia pequena, local de encontro, no verão, de muita gente que usufruia a melhor das convivências com seminaristas e padres palotinos. O grande hotel, que constituía quase todo o balneário, pertencia à Congregação deles. Desde que descobrimos aquele local, todas as férias íamos passar 15 dias com os hóspedes, fazendo parte de uma grande família.

Ninguém voltava de lá como chegou: todo mundo adquiria uns quilos a mais, a comida era generosa e de máxima qualidade, e sentia-se muita saúde pelos exercícios praticados– até goleira de futebol feminino eu fui – e um desastre, porque deixei passar todas, que afinal nem eram tantas, ninguém jogava nada.

Lembro das minhas filhas pequenas ainda, que me davam a maior folga de 15 dias, tantas eram as pessoas para paparicá-las. A menor, que sempre gostava de “empacar”, só aceitava sair do lugar, seja onde estivesse, quando um amigo nosso, seminarista da Filosofia, ia até o chão onde ela chorava, dizia alguma coisa no ouvido dela, ela levantava os bracinhos e voltava para casa na garupa dele. Uma vez perguntei a ele o que disse para acalmá-la, ele apenas riu. E, nunca fiquei sabendo. Nem ela é capaz de lembrar, hoje, que palavras mágicas ele pronunciava. Ele a chamava carinhosamente de Pipoca.

Desistiu de ser padre, quase na reta final, não por paixão a uma mulher, mais induzido, levado, convencido de que não tinha vocação para o sacerdócio. Depois de idas e vindas com uma moça, casaram e no convite davam “satisfação” de suas “insanidades”, com um desenho onde ele era arrastado por ela, para um barco, talvez as águas representassem a vida, onde ele teria que velejar, forçado, daí por diante.

Algumas vezes ainda o vi de longe, quando o casal vinha de férias com as duas filhinhas. Trabalhavam com os índios no Mato Grosso e, lá, soube depois, ele se empenhou como se aquilo fosse uma missão, outro tipo de sacerdócio. Certo dia  telefonou para um parente daqui, se despedindo. Como assim? quis saber o primo. Vai para a Europa, Ásia, Oceania?  Do outro lado da linha, apenas deixou escapar um riso. Foi ao cartório, colocou tudo no nome da mulher, se despediu das meninas, e partiu. Não fez mais contato..

Anúncios foram colocados nos maiores jornais da capital daqui e dos outros Estados. Nada. O último sinal que ele deu foi um telefonema, já na  Foz do Iguaçu, e quando tentaram perguntar para onde ia, que pensasse bem no que estava fazendo, desligou. Nunca mais, nesses mais de 20 anos, foi visto nem deixou pista Alguns pensam em suicídio premeditado…

Sinto saudades da Praia Azul, que hoje deve ter mais do que aquele hotel,  de outros proprietários, agora. Terrenos foram loteados e casas construídas. Queria aquela praia que não existe mais, quase deserta  e que se enchia de vida por dois meses apenas. E, além das “travadas” da minha filha de três anos, queria vê-la levantar os braços e fazer as pazes com o mundo, porque um rapaz sabia convencê-la a ir para a hospedaria, já que era perigoso ficar só, na  imensidão arenosa. Mas, acima de tudo, queria saber por onde, em que mundo, dos vivos ou dos mortos, está aquele moço que foi um grande amigo. Que entrava na minha casa pela porta dos fundos, para  tomar  cerveja e conversar. Homens quase não conversam, ao menos os que encontrei ao longo da vida. Esse falava. O essencial, sempre. O que ia por dentro do seu coração. O filho que não tive, queria assim: aberto, sem frescuras, sabendo compartilhar. Como ele sempre fez comigo.

E, é por falta de “colocar-se” no mundo, que não conseguimos mais “achar” as pessoas, nem uma praia que tinha o nome de Azul, como as águas que a banhavam, foi barulhenta dois meses ao ano, e que tinha um rapaz que, no fim, não confiou seu último segredo, sumindo para sempre…

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