“Aqui entre nós”, uma crônica do professor Eduardo Ayala

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Prof. Doutor Eduardo Ayala

É de se supor que um impenitente como eu, que aceita com relutância os padrões morais socialmente instituidos, seja contumaz no pecado e na perversidade. Conheço pessoas que são meus antípodas, que seguem à risca os preceitos religiosos e sociais com um ato de fé e uma franca convicção de dar inveja. Há os que agem da mesma forma, mas o intuito é notoriamente diferente: mostrar-se para os outros, não sem um falso arroubo de beato, como exemplos de correção, moralidade, humildade, modéstia… A estes, com o perdão do Criador, os detesto de maneira inefável!

As diversas religiões consideram o pecado como um abuso da liberdade. Pergunto-me: quais são de um modo geral e categórico, os limites da tal liberdade humana? Eu que não presto tributo ao altar de nenhum dogma religioso nem a uma ideologia irrefutável, imagino que o livre arbítrio de cada um seja o melhor recurso para o balizamento dos nossos atos, sejam estes quais forem. Neste caso e parafraseando Baruch Spinoza: evite-se, com o maior cuidado, a ironia cáustica e o desprezo pelas ações dos nossos semelhantes; em contrapartida, o que deve ser feito é tratar de compreendê-los com a mais conspícua responsabilidade.

Ainda lembro, como se fosse hoje, os tortuosos prolegômenos da minha primeira comunhão católica. A catequista, uma solteirona de uns 45 ou 50 anos, genuína e fervorosa amante de Cristo, reivindicava a nossa fé em Jesus sem esquecer jamais que éramos pecadores iminentes em potencial. Eu já pensava, naquela ocasião, que incutir a fé numa criança era uma intolerância em estado avançado. Admitir o pecado, então, significava conviver com a paranoica cultura do medo. Aqui entre nós, alguma vez eu já lhes disse que a fé é uma dádiva que não me foi concedida em plenitude? E o pecado? Simples: consiste em rejeitar as normas de Deus escritas por humanos como você e eu.

De antemão, advirto que não sou um virtuoso e nunca conseguiria sê-lo. Possuo vícios que não infringem a lei e que são inerentes à maioria da espécie humana. Isto é imoral e antiético? Pois então que seja enquanto me traga felicidade. Adoro preparar um “ceviche” ao ritmo de uns goles de “pisco” permeado por umas cervejinhas bem geladas. Há! Tenho uma queda por mulheres bonitas e inteligentes. Juridicamente, evito transgredir as regras impostas pela sociedade; portanto, no há crime que me seja imputado. Agora, teologicamente não poderia dizer a mesma coisa: sou um pecador iminente, quase congênito, passível de sucumbir a um oceano de “tentações”.  Pelo menos isso é o que determinam as leis e os mandamentos elaborados pelos homens em nome de Deus.

Todas as religiões, verdadeiras amantes do Supremo Ungido, conduzem à vida eterna no almejado paraíso celestial. Todas sem exceção! Basta seguir ao pé da letra os preceitos de cada uma delas para ser salvos da mácula do pecado. Por outro lado, acredito, sem assomo de dúvidas, na existência de um Deus indivisível, e não mais de um. Modestamente, elaborei minha própria liturgia para falar com Ele, para amá-lo a meu modo, sem interpostas pessoas que direcionem o meu caminho ou obnubilem a minha mente. Tenho a absoluta certeza de que Ele me ouve e me responde com encorajadoras e quase inaudíveis epifanias quando adormeço. Senhor onipotente de diamantina pureza, eu te amo!

 

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