A crônica premiada do professor Rubem Boelter: O moçambicano

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Ruben Boelter

Era março do ano de 1971. Entrei no anfiteatro ao lado do Departamento de Fisiologia onde os alunos me aguardavam ansiosos para dar inicio á primeira aula do ano letivo.

Embora alguns professores passassem apenas uma folha de presença, eu tinha por hábito fazer a chamada nominal, para saber os nomes dos alunos, suas procedências e conhecê-los melhor.

Comecei pela ordem alfabética até chegar aos alunos cujos nomes iniciavam com a letra C e chamei:

– Carlos Manuel de Souza Serôdio.

– Presente, professor, respondeu-me o aluno com um sotaque de quem fosse de Portugal, pois naquela época tínhamos alunos de diversos países que vinham através de convênios.

-Então perguntei-lhe, você é português?

-Não professor, eu sou moçambicano.

Percebi então na expressão da sua resposta, que ele não havia gostado muito de ser chamado de português e dias depois explicou-me que era contra a opressão colonialista portuguesa e a favor da independência de Moçambique.

Quando o Dr. Mariano da Rocha Filho, em 1969, foi receber uma alta condecoração do governo de Portugal, Carlos Manuel ficou sabendo de um acordo cultural desse país com o Brasil, o qual permitia a transferência de estudantes de Portugal e de Moçambique.

Dessa maneira ele e sua esposa Lúcia, também estudante de veterinária, foram transferidos para a nossa universidade, alugaram uma casa em Camobi, onde moraram com suas duas filhas até a conclusão da faculdade.

O moçambicano, como era chamado, tinha estatura alta, olhos castanhos, usava bigode, uma barba rala e cabelos escuros e lisos até os ombros.

Vestia uma bata longa, com sacola a tiracolo e sandálias de couro, tudo com as cores características daquela região da África.

20BPela maneira de vestir-se e por ser “cabeludo,” o moçambicano era considerado “hippie” por alguns colegas e guerrilheiro por outros, inclusive professores, pois estávamos em pleno regime militar.

De uma Inteligência privilegiada, Carlos Manuel destacava-se tanto nas matérias teóricas como nas práticas, quando tirava sempre a nota máxima.

Sempre demonstrou muito interesse pela pesquisa e tornou-se bolsista do nosso departamento, onde participou de projetos e publicou vários trabalhos.

Foi um excelente pesquisador e possuía habilidades para improvisar, consertar e muitas vezes fabricar instrumentos de pesquisas, numa época em que os recursos para compra de instrumentos de laboratório eram precários.

Certo dia precisávamos de um suporte para colocar e proteger os  tubos de ensaio de pesquisa e como havia muitos prédios em construção no campus, Carlos Manuel resolveu o problema rapidamente. Buscou em torno de 30 tijolos de 4 furos e improvisou uma prateleira em cujos furos  foram colocados os referidos tubos.

Aconteceu, entretanto, que durante os preparativos de formatura exigiram-lhe que cortasse os longos cabelos, caso contrário sua foto não iria fazer parte do quadro de formatura.

Convicto de que seus cabelos nada tinham a ver com seu caráter e sua maneira de ser, impôs-se energicamente, a tal ponto que a exigência foi suspensa.

Participou das solenidades de colação de grau e dias depois Carlos Manuel e Lúcia despediram-se dos colegas e professores e voltaram para Moçambique.

Entretanto fiquei sabendo, mais tarde, que por ter tirado o primeiro lugar da sua turma ele teria direito a uma caneta gravada com o seu nome e da UFSM, oferecida pela direção do Curso de Veterinária e que partira sem recebê-la.

Passaram-se 30 anos, e um dia ao entardecer, a campainha da nossa casa tocou. Ao abrir a porta vi um homem alto, sem barba, de cabelos curtos, de roupas usuais, acompanhado de um menino que me olhavam sorrindo.

Tentei identifica-los, mas antes que eu falasse qualquer coisa ele disse-me:

– Professor, não estás me reconhecendo, sou eu Carlos Manuel, o moçambicano.

Foi um momento de muita emoção e alegria rever um colega que viera nos visitar após tantos anos, trazendo seu filho, pois Lúcia havia falecido.

Festejamos o encontro, conversamos, recordamos, fomos ao campus e antes dele partir dei-lhe o que ele havia deixado de receber há muitos anos: uma caneta gravada com seu nome e da UFSM.

 

 

*Este texto do professor Rubem Boelter foi premiado na Categoria Egresso em recente Concurso de Crônicas promovido pela UFSM. Na ocasião, o autor utilizou-se do pseudônimo Zulu.

*Ilustração: ESTROLABIO, do artista plástico moçambicano, Malangatana Valente Ngwenya,

 

 

 

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