Em se plantando…Uma crônica de Celina Fleig Mayer

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Foto reprodução internet
Foto reprodução internet

Celina Fleig Mayer

A cena não foi tão antiga assim. Apenas acompanhava o que sempre aconteceu nos modelos de comportamento dos séculos anteriores ao 20. A mocinha que namorava era vigiada, até porque o amor sempre foi cego, surdo,mas ouvia bem.As cantadas, em especial. Carência afetiva ou hormônios que nãopodiam se manifestar?

Pois a menina namorava sob os cuidados – em exagero, segundo os vizinhos e conhecidos –  dos pais. Mas engravidou. E,como ouvira, muitas vezes, as ameaças do tipo “se tu…aí te boto na rua”. E a promessa foi cumprida. Porque uma vida estava a caminho, e o autor sumiu.

Menina na rua,nem seus pertences pode pegar. Só identidade. Uma mulher, ao vê-la sentada na praça, chorando, aproximou-se. Ouviu a história. Levou-a para sua  residência. Eram só um casal de moradores.  E a garota mostrou-se educada e prestimosa, adiantou-se ao comando de qualquer solicitação. Estava acostumada a servir junto aos seus familiares.

As crianças nasceram: sim um casal de gêmeos. Foi uma movimentação no pequeno apartamento, agora  um verdadeiro lar. Muita atividade e vitalidade que florescia, isso a própria senhora sentiu. Estava mais ágil para as tarefas multiplicadas. A dor na coluna amainou, os joelhos como que se ajustaram ao sobe e desce das escadas.

Mas nem tudo eram flores. Houve desacertos  entre a jovem e a mulher.Como acontece com qualquer ser humano que convive.  Passageiros, pois ambas reconheciam a dupla ajuda. E o reconhecimento.

Crianças felizes, na escola. Notadas pela semelhança e graça. Durou pouco o enlevo. A jovem teve um infarto fulminante, estranho para quem se apresentava tão saudável e ativa. E as crianças ficaram com a “vó”. Os pais da falecida descobriram  o paradeiro dos menores e quiseram levá-los. Eles se negaram a acompanhar os, então, estranhos.

O  tempo passando, juventude dos pequenos,morte do “avô” que copartilhava de tudo mais à distância, e nunca negando apoio. Ficaram só os três, quando os meninos entraram na Faculdade. E a Senhora, já grisalha em idade (quem não pinta?), pensou que precisaria de alguém, não só para os trabalhos domésticos. Os meninos não deixaram. Criaram esquemas para que ela sempre estivesse acompanhada por um deles. A auxiliar do lar resolvia as funções da  casa.

E hoje, ainda, eles casados, cada um com sua família, assistindo uma mulher que abriu as portas da sua morada e do coração para dar amparo à uma infeliz que perdeu o direito de viver  entre os seus.  Alguém dirá: que mulher de sorte, essa que amparou a moça, pois garantiu uma velhice  tranquila! Um fato verídico que pode acontecer com qualquer um de nós, e não teremos tempo de pensar em sorte no futuro. Ela será apenas consequência…

No entanto resta a questão: quem de nós acolheria uma moça estranha e grávida?

 

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