Literatura: “Juro no decir nunca la verdad”, de Javier Marias, sob o olhar do professor Aguinaldo Severino

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Trinta ou quarenta por cento dos textos são marcadamente políticos, onde Javier Marías (foto) interpreta o momento político e econômico do seu e dos demais países da comunidade européia. Foto Reprodução
Trinta ou quarenta por cento dos textos são marcadamente políticos, onde Javier Marías (foto) interpreta o momento político e econômico do seu e dos demais países da comunidade européia. Foto Reprodução

 

 Aguinaldo Severino

 

Em “Juro no decir nunca la verdad” encontramos 95 crônicas publicadas originalmente no El País Semanal entre 10 de fevereiro de 2013 e 01 de fevereiro deste terrível 2015 que se encerra.

Mesmo passados os muitos meses de sua publicação nenhuma das crônicas parece datada ou envelhecida, nenhuma soa incongruente ou irrelevante. O estilista Javier Marías dos romances e contos é também um inventor inspirado em suas crônicas.

Marías sobretudo argumenta, defende uma posição, contrasta seu entendimento das coisas com o senso comum ou com opiniões de terceiros.

Ele sempre é implacável em seu juízo, mas nunca mal educado ou descortês. É justo (como sabem ser Eáco, Minos e Radamanto, os juízes do inferno), seja com os políticos de seu país, com o patético ex-treinador do seu time de futebol, com os funcionários de um aeroporto em Londres que roubaram pertences seus, com  colegas escritores, ou ainda com vizinhos de bairro e conterrâneos madrilleños.

Trinta ou quarenta por cento dos textos são marcadamente políticos, onde Marías interpreta o momento político e econômico do seu e dos demais países da comunidade européia, mas há um número maior de textos sobre outros assuntos, como seu ofício, suas influências literárias, sua família e amigos, sua memória das coisas da infância ou juventude, seu azedume em relação a onipresença da igreja no cotidiano espanhol, sua paixão pelo cinema ou sua prática como acadêmico nas reuniões da Real Academia Española de la Lengua.

"Juro no decir nunca la verdad", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones), 1a. edição (2015),
“Juro no decir nunca la verdad”, Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones), 1a. edição (2015),

Dos disparates que presencia ou lê brotam crônicas nada ligeiras. Produzidas para emular falsa simplicidade, elas se deixar ler nos domingos pela manhã, ora com sorriso, ora com esgar. Nelas encontramos argumentos vigorosos e complexos, seminais e definidores.

Ele nunca é panfletário ou engajado (no mau sentido da palavra, ou seja, no sentido que experimentamos, por exemplo, na quase totalidade das opiniões de intelectuais e escritores brasileiros contemporâneos). Ele nunca se ilude com a aparência do que vê, reproduz versões oficiais, aceita as promessas ou regras dos jogos de poder (coisa que os servis jornalistas brasileiros, quase todos escravos mentais de alguma forma pagos com dinheiro público, fazem rotineiramente).

Quando ele acusa um erro ou atenta para um problema sempre encadeia seus argumentos com lógica e método. Ele antecipa movimentos e/ou desdobramentos dos fatos aparentemente corriqueiros que registra.

Apesar de reiteradas mostras de sabedoria Marías nunca é pedante (seu humor é algo que encanta o leitor mesmo quando o assunto é árido, complicado, de entendimento sutil).

Como não rir do sarcasmo de um “Si los tontos volaran no se vería el sol”? Pois então. Quer ler algo não ficcional de Javier Marías? Experimente a leitura de qualquer um de seus conjuntos de crônicas: Mano de sombra, Seré amado cuando falte, A veces un caballero, Harán de mí un criminal, El oficio de oír llover, Demasiada nieve alrededor, Ni se les ocurra disparar e Tiempos ridículos. Em todos encontramos aulas exemplares da história recente da Espanha. Bom divertimento.

Cabe aqui uma última nota. Há um causo que vou lamentar por muitos anos ainda. Acontece que perdi a oportunidade, em fevereiro último, de cumprimentar don Javier Marías. O vi na Calle Cava Baja, em Madrid. Estávamos Lola, Manolo e eu saindo da Taberna e Posada de la Villa, onde havíamos tomado umas copas e fazíamos planos para jantar. Lola chamou nossa atenção e disse que o Marías estava ali, na diagonal, do outro lado da rua, fumando calmo seu cigarro debaixo do dintel de uma porta. Fiz menção de irmos lá cumprimentá-lo, porém Lola lembrou do quão zeloso de sua privacidade era ele.

Estava frio naquele inverno e o lusco-fusco do início da noite fazia as luzes bruxulearem. Ficamos uns minutos ali parados, indecisos, em quase transe. Manolo bromeava como sempre faz, nos incentivando a cruzarmos a rua e eventualmente recebermos nossa cota de impropérios marianos. Lola lembrou de uma amiga que não foi exatamente bem recebida em circunstâncias parecidas. Fomos covardes, ai de nós, decidimos deixá-lo na paz de seu santo cigarro.

Seguimos no sentido oposto, Cava Baja abaixo e ficamos um bom tempo falando dele e de seus livros. Manolo ria de nossa continuada timidez. Nem Lola nem eu sabíamos explicar o que de fato nos impediu. Era tarde. Como teria sido divertido ter ao menos balbuciado um par de frases com ele naquele dia. Vale.

“Juro no decir nunca la verdad”, Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones), 1a. edição (2015), brochura 14×22 cm, 378 págs. ISBN: 978-84-204-1210-8

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