“Sem esperar aplausos”, uma crônica de Máximo José Trevisan

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Foto reprodução internet
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            De que adianta construir a ponte se o peregrino não deseja a outra margem do rio? De que serve a espera da terra se a semente não tem ânsias de frutificar? Para que foi o esforço carregado  de madrugada se os convivas não virão ao jantar?

Quantos entusiasmos morrem após a primeira brotação, na primavera dos convertidos! Quantas palavras se chamam ao silêncio depois do discurso sem ouvintes! Quantas mãos se recolhem ao corpo, ao perceberem a falta de outra mão no gesto fraterno interrompido! Cada frustração tem o tamanho do sonho ou do projeto não realizado. Quando se deseja uma lavoura cheia de frutos, dificilmente se terá vibração com a pequena colheita. Na busca de estrelas, pode passar despercebido o pisca-pisca dos pirilampos.

Muitos filhos só descobrem o valor dos pais quando da sua perda definitiva. Quantos heróis só tiveram monumentos construídos quando foram descobertos pela história! Em vida se alimentaram apenas de silêncios. O pequeno gesto ou o heróico manifesto não dependem tanto de si mesmos como do tamanho da vida de quem os recebe.

A frustração no servir é tiririca que invade o jardim das boas ações e sufoca a alegria das flores. Combate-se a frustração ao aceitar o desafio de dizer a palavra sem esperar colher o eco, de plantar o trigo sem buscar depois o pão, de estender a vida como caminho sem ver gestos de gratidão. Em tudo, a frustração é menor quando a pretensão e o propósito não andam à cata de retorno. Professor ou varredor de rua, político ou sacerdote, médico ou dona de casa, em qualquer missão é preciso cultivar a virtude do servir pelo servir! Assim, a continuidade da prática estará assegurada, e a decepção não será companheira de nossas noites.

Indicar caminhos por vocação, declamar versos sem escolher ouvidos, servir ao mundo como um devedor. Cada gesto voluntário é um pagamento por conta do grande débito à vida (todos somos devedores do mundo pelo que dele recebemos). A possibilidade de receber uma martelada no dedo só acontece quando estamos  construindo com os outros o mundo dos homens. Os omissos, os que se  afastam, os que se preservam de críticas, esses não se sujeitam às marteladas nos dedos porque não assumem riscos. O sol (todos sabemos!) nasce todos os dias, e os pássaros cantam nas árvores sem esperar aplausos. O mundo, no entanto, é melhor por causa deles.

* maximotrevisan@uol.com.br – advogado, professor, Presidente do Fórum das Entidades Culturais de Santa Maria, membro da Academia Santa-Mariense de Letras.

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