Crônica: “Poquita fe”, por Eduardo Ayala

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Foto reprodução
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Para Wilson Soriano, meu entranhável amigo.

 

Após os afinados acordes iniciais dos violões, brotam três melodiosas vozes: “Yo sé que siempre dudas de mi amor y no te culpo / Y sé que no hás logrado hacer de mi querer lo que tu amor soñó…”.E o homem, com o cigarro acesso entre os dedos e a mirada perdida em algum canto do bar, ouve a música alheio a tudo, ensimesmado, bem distante; a freguesia entra e sai do boteco, e mesmo assim, o sujeito não se imuta, não está nem aí para os outros; não faltam habitues com olhares escrutantes, mas ele, porém, permanece encastelado na intimidade dos seus ignotos pensamentos.

Com meus treze ou catorze anos ia, eventualmente, a tomar um refrigerante na vendinha do senhor Bernaola, um gordo bigodudo, avermelhado e ótimo piadista — um típico bolicheiro castelhano de antanho. A sua apapagaida radiola de moeda (“jukebox”) era uma especial referência para nós: a gurizada do bairro. Com cinquenta centavos de Sol curtíamos “Rock Around the Clock” de Bill Haley e seus cometas, com outros cinquenta “The twist” de Chubby Checker; com mais cinqüenta, então, extasiávamo-nos com “Kiss me quick” do eterno Elvis… Puxa vida! Como era lindo sentir o penetrante enlevo que emanava do encanto cósmico dessas vozes, ritmos e melodias!

E não é que o homem continua a frequentar o barzinho do indulgente Bernaola? Sua enigmática postura diante da radiola mostra-se inexorável, inacessível ao desalento. Todo sugere que no cerne dessa enorme caixa musical habita, de alguma forma, a eterna promessa da esperança. Ou por que não o bálsamo para inimagináveis atribulações? Percebe-se que está bem abastecido de moedas que vai colocando-as uma a uma dentro do aparelho, pressiona os botões e… É então quando surgem as três vozes inconfundíveis, sim, elas mesmas: “Yo sé que fue muy grande la ilusión que em mi tu te forjaste / Para luego encontrar desconfianza y frialdad em mi querer…”.

Quando guris, havia tantas coisas que não conseguíamos compreender a contento. A essa altura da vida, as nossas mentes divagavam mais nos confins do sonho virginal do que no mundo como realmente era. Por isso, quando Pablo disse “tem um chato de m… que se aproprio da radiola”, todos concordamos com ele sem restrições. Seja qual for a razão, por que aceitaríamos que um desconhecido viesse a solapar em cheio o nosso dia a dia? O que levava esse sujeito a ouvir cinco ou seis músicas consecutivas e, ainda por cima, o mesmo vinil que já se tornara muquirana? Uma noite, sob o imperativo de um calor sufocante e úmido, entrei no boliche de Bernaola à procura de uma Inka Kola, e — epa! — dou de cara com o homem. Seu rosto tinha a expressão de alguém que, simultaneamente, se revelava carrancudo e anestesiado para o entorno. Depois de um demorado suspiro, bebeu lentamente alguns goles de cerveja; apertou os lábios, franziu a testa e esmagou a bituca no surrado e negrusco cinzeiro. Voltando para casa, ao tempo que fui andando, disipavam-se vagarosamente, no ar, as inconfundíveis vozes de “Los Panchos” que os mais velhos tanto adoravam.

Nem se sabe mais quantos dias o homem vive aquerenciado no modesto espaço do boteco. Sem falhar, ele chega com o crepúsculo e, após o costumeiro rito musical com estética de quebranto, fecha a noite quando a clientela começa a rarear. “O cara está amargurado” diz Efraín por entre os dentes; e, de fato, não lhe falta razão ao nosso amigo: o sujeito, além de sombrio, tem um semblante visivelmente melancólico. Até que por fim Gregório sentencia impassível o que todos queríamos ouvir: “Meu velho falou que é coisa de anágua, o tipo está despeitado”. Enquanto isso, o principio ativo da radiola continua a singrar pelos recônditos labirintos daquele coração solitário: “Comprende que mi amor burlado fue ya, ya tantas vezes / Que se há quedado al fin mi pobre corazón com tan poquita fé…”. Ele não vai além de uma embriaguez moderada que o afasta levemente de si, mas sem abandoná-lo nem um segundo sequer. Afigura-se, isso sim, que continua conjugando assiduamente o verbo pensar em todos os tempos e modos possíveis: é muito provável que o influxo do álcool está, aos poucos, estabelecendo uma nova ordem de prioridades para a sua vida, quem duvida?

Batizamos o homem! Foi alcunhado de “Poquita fe”, nome da interminável música que se interpunha entre ele e nós. À tardezinha, Pablo sugeriu que déssemos um pulo ao barzinho para ouvir a última aquisição de Bernaola: “La Plaga” de Enrique Guzman. A música era muito boa, um autêntico rock and roll dos anos 60, porém… Chegou o cara! Olhou-nos por cima do ombro, aguardou que o exótico Guzman termina-se de cantar e, pela enésima vez, a ladainha se anunciou impetuosa: “Tu tienes que ayudarme a conseguir, la fe que com engaños yo perdi / Me tienes que ayudar de nuevo a amar y a perdonar. Adiantou, por acaso, que invocássemos com o olhar esperançoso o auxilio do bolicheiro? Não! O bigodudo espertamente se fez de bobo, ao passo que “Poquita fé” agia a seu bel-prazer: via-se-lhe subsumido na música e “abraçado” à radiola até se fundir nela…

O escriba que vos fala houve por bem apresentar algumas considerações finais: (1) “Poquita fe” e Bernaola eram velhos amigos que o infortúnio do primeiro fez com se reencontrassem, no boteco, depois de anos; (2) Ouvi de esguelha, numa conversa de adultos, que o nosso personagem central “levava uma cornada atrás da outra, era um azarado para o amor”; (3) Bernaola, num arroubo de autoridade no assunto, patenteou diante da freguesia a seguinte tese: “Ele era ciumento demais, acreditava piamente que todas as mulheres que teve o traiam com a maior cara de pau, tudo era imaginação sua, pura bobagem”; (4) O padre Leonidas, que alguma vez chegou a confessá-lo, pontificou com eclesiástica solenidade: “Algo me diz que o senhor “Poquita fe” está mais feliz do que nunca, elevou a sua fé a quinta potência, com certeza”; (5) Efraín, um evangélico devoto — que preferia ser chamado de Efraín Silvera “por ser bem nascido” —, perguntava sempre: “Por onde andará Poquita fé?”, “Será que o ajudaram de novo a amar e a perdoar?”; (6) “Pero caramba, como um hombre puede ser burlado tantas y tantas vezes?”, me questionava sem encontrar uma resposta…

 

Errata:

Na página 10 da edição de outubro do Jornal da APUSM, na crônica “Poquita Fe”, de autoria do professor Eduardo Ayala, nossa revisão de português se equivocou em três ocasiões. Pedimos desculpas ao nosso amigo, cronista, articulista e também associado, assim como nossos leitores.

São elas:

(1)Quando o autor se refere ao artigo “o sujeito no se imuta” (1º parágrafo), apenas afirmou que esse personagem “no se altera nem muda, fica quieto”.

(2) “Poquita fe” é nome singular de uma música e da alcunha do protagonista. Portanto, a preposição “De”, que precede a “Poquita fe” alterou, em termos literários, a peculiaridade nominal e a razão de ser do título.

(3) na dedicatória que o autor faz a Wilson Soriano, leia-se “entranhável” e não “estranhável”

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