Crônica: Expressões gestuais e estereótipos…, por Eloisa Antunes Maciel, professora aposentada da UFSM

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reprodução internet
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Houve um tempo em que o termo expressão corporal e seu correlato (no plural) expressões gestuais viraram modismos que varavam os limites do intolerável…

Se uma garota caminhava de nariz empinado e bumbum saliente, logo era tachada de esnobe (termo da época, claro). E se alguém assumisse um posicionamento discreto frente a acontecimento dito momentoso, o rótulo presumido era, geralmente, o de alienado (sem falarmos de suas “variantes” desabonadoras)…

Felizmente essa avalanche preconceituosa foi-se esgotando, talvez em razão dos seus próprios efeitos… Mas, ao que parece, a quase extinção do uso de tais expressões teria ocasionado um efeito também indesejável: por não serem devidamente conotadas e reconhecidas em seu genuíno conteúdo (mensagem), as expressões corporais – e notadamente – as gestuais (como as da mímica facial) foram inicialmente ignoradas, sendo que posteriormente passaram a ser percebidas sob o viés da deturpação – ou desvio grosseiro de codificação da mensagem que subentendiam… Por que essa consequente adulteração?

Em parte, devido ao declínio do modismo, mas, fundamentalmente, pelo mesmo motivo que o teria ocasionado: o estereótipo, fenômeno psico-social existente desde sempre, porém variável conforme o avanço dos processos de comunicação no plano das relações pessoais – sociais e suas diversas formas de expressão.

Recuando cerca de dois séculos, teremos notícias de desastrosos prejuízos pessoais sociais (além de outros destes decorrentes) causados a pessoas de renome e reputação intocável, entre os quais alguns escritores notáveis e intelectuais de talento indiscutível…  Esses exemplos são fartos e podem ser constatados através de documentos como biografias selecionadas, dados historiográficos e outras formas de registro confiável existentes em bibliotecas e outras instituições do gênero.

Mas… E o estereótipo? De que consiste, fundamentalmente?

Simples (e basicamente) do seguinte: de preconceitos arraigados que se mantêm zelados e preservados, como dizem (ou diziam) serem as profecias relacionadas ao “fim – do mundo”… E essa era a fonte de proliferação de pérolas como o adjetivo frescoatribuído a homens – geralmente rapazes – que revelassem comportamento refinado, gestos ou expressões consideradas destoantes daquelas assumidas pelos presumidos machões de todos os tempos…

Pecha semelhante recaia sobre escritores e outros intelectuais em tempos de exacerbado patriotismo quando esses pensadores ousassem destoar desse modelo rígido de “fervor patriótico”…  Certamente alguns desses termos poderão ser localizados em registros que datam da época da Segunda Guerra Mundial: nazista, alemão batata, gringo matuto…

Assim osestragoscausados por estereótipos mantidos após a quase extinção do modismo a que nos referimos ao início deste texto, ainda tendem a ocasionar deturpações das mais variadas ordens – desde a codificação errônea de uma expressão facial à atribuição de falsas anomalias ou deficiências a partir de expressões gestuais cujo verdadeiro sentido (ou conteúdo subjacente) é ignorado…

Nessas situações pode-se perceber a tachação de surdo a uma pessoa a quem teria sido atribuída essa condição pelo simples fato de alguém não haver decodificado corretamente uma expressão facial (que subentenderia assentimento e, contrariamente, fora conotada como um gesto de interrogação)…

A propósito, imaginem: esse conceito, erroneamente decodificado, poderá desencadear uma “abordagem” também errônea ao suposto surdo: este poderá ser abordado através de mímica com destaque a “expressão labial”, sem que o autor da errônea abordagemconsidere todo um conjunto, ou campo comunicativo verbo – oral do indivíduo tachado de surdo…

Ignorância?… Como se diz na linguagem corrente: “Só pode!” Mas não somente à Santa Ignorância pode ser atribuída tamanha aberração…

Nesse contexto entram também suas afins, como a Dona Petulância, a Senhora Empáfia e outras damas vestidas de fina arrogância sobre um interior paupérrimo, o que tende a vedar a real percepção de realidades ocultas no bojo das manifestações não verbais, incrementando-se os estereótipos assimilados desde sempre, ainda que incorporados ingenuamente.

Enfim, ressalte-se: embora esta premissa não deva ser generalizada, convém repensá-la ante o intento de minimizar os efeitos negativos da estereotipia no plano das expressões gestuais e, consequentemente, na comunicação humana na sua totalidade.

 

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