Artigo – Pesquisa causal-comparativa ou ex-post-facto, por Eduardo Ayala

0

8B Ayala

 

Prof. Dr. Eduardo J. Z. Ayala

 

Vejamos o significado deste estilo de pesquisa descritiva: “A tradução literal da expressão ex-post facto é “a partir do fato passado”. Isso significa que neste tipo de pesquisa o estudo foi realizado após a ocorrência de variações na variável dependente no curso natural dos acontecimentos… na pesquisa ex-post facto o pesquisador não dispõe de controle sobre a variável independente, que constitui o fator presumível do fenômeno, porque ele já ocorreu” (CCEM, 2009). Há pouco tempo, assistindo ao noticiário da noite, me deparei com uma cena deprimente: um caminhão atipicamente estacionado obstrui a passagem de um auto com dois passageiros, pai e filho. Este, possuído de fúria, sai do veículo para cobrar satisfações do caminhoneiro, sem argumento que o convença parte às vias de fato; socos, pontapés, pauladas e até canetaços punçantes do filho são desferidos numa das duas filhas do dono do caminhão que vieram em socorro do pai, a pancadaria parece interminável… Afinal de contas, o que levou esse moço a agir com tamanha violência? Francamente não sei, só posso dizer que agora já é um “fato passado” que merece atenção especial por parte das autoridades de trânsito; casos como este, só na cidade de São Paulo, chega à copiosa cifra de quatrocentas ocorrências por dia! Dá que pensar, não dá?

Transferindo esse episódio para o terreno da pesquisa, considere-se a “briga no trânsito” como uma variável dependente (VD), pois ela personifica o efeito de inimagináveis causas ou variáveis independentes (VIs) cujas identidades deverão ser desvendadas com o auxilio da indagação metódica. O que motiva a exaltação áspera de motoristas e passageiros? Desequilíbrio emocional? Consumo de entorpecentes? Atitude hostil própria de uma frustração? Pura misantropia?… Enfim, os motivos não são poucos, mas é obrigação do investigador identificar e classificar as possíveis variáveis independentes que deram origem a esse tumulto, em particular, ou a qualquer outro problema semelhante ou não que, em muitas situações, pode conduzir a um desenlace funesto.

O procedimento comparativo é uma das alternativas mais eficazes para conhecer as VIs causais que suscitaram a VD (daí o nome causal-comparativo). Voltando ao exemplo anterior, considere-se o jovem agressor como agente portador da VD “briga no trânsito” e denominemo-lo de “Fator A” (FA); em seguida, procurem-se outras pessoas (motoristas ou caronas) que nunca protagonizaram atos similares e designemo-los de “Fator B” (FB). Depois, elaborem-se dois roteiros diferenciados de entrevista (um para cada Fator) com questões que permitam a obtenção da maior quantidade possível de informações pertinentes. Isto é, as perguntas a serem feitas ao FA enfocarão, de preferência, as razões que incentivam a tomar decisões irruptivas ou impensadas que podem, por desventura, degenerar-se em tragédia; ao passo que as interrogações para o FB abordarão os motivos que confluem para a preservação da parcimônia e da equanimidade em face de situações de intolerância no trânsito. Por último, parta-se para uma análise acurada das informações recolhidas e confrontem-se ambas as opiniões para descobrir as variáveis que estiveram ausentes e presentes em FA e FB; assim, será mais fácil aproximar-nos das supostas causas que provocaram a VD: é bem possível que as variáveis relevantes do FB não estiveram presentes no FA. Exemplo: a prudência, o bom senso, o respeito, a sobriedade, a paciência resignada, a religiosidade, o grau de escolaridade, etc. são, por princípio, critérios básicos para o comportamento condizente com as circunstâncias sociais que nos rodeiam. Consequentemente é de se supor que a falta de todos esses e outros predicados fizeram com que o nosso personagem central, desta variedade de pesquisa, apelasse para a “ignorância”.

Post-Scriptum: Há outros velhos e inesquecíveis mestres que, de uma forma ou outra, marcaram as vidas dos seus discípulos, figuras como Deobold B. Van Dalen e William J. Meyer merecem ser lembrados nas suas próprias palavras: Num estudo causal comparativo, o investigador analisa uma situação vital em que os sujeitos já têm experimentado um fenômeno que deseja investigar. Por exemplo, se deseja estudar atos de indisciplina que inibem a integração escolar… deverá comparar a comunidade escolar na qual tenham se produzido tais atos de indisciplina com outra que não tenha vivenciado experiências dessa índole. Depois de estudar as semelhanças e diferenças que existem em ambas as situações, poderá descrever os fatores que parecem explicar a presença do fenômeno numa situação e a sua ausência na outra (Op. cit., 1971, p.246).Talvez o leitor considere desnecessárias as reminiscências que trago a este P-S, no entanto, é intelectualmente saudável ter em mente que toda história, inclusive a da ciência, é o resultado da reflexão dialética de muitas gerações. A este respeito Kosik disse a mais luminosa verdade: “A realidade humana não é apenas produção do novo, mas também reprodução crítica do passado”.

 

BIBLIOGRAFIA:

  1. Escola de comando e estado-maior da aeronáutica/Disciplina: pesquisa científica – 2008.  Obtido por download em http://www.unifa.aer.mil.br/ecemar/pesquisa/Textos2005_3.htm. Acesso em 19 de junho de 2014.

VAN DALEN, Deobold B. e MEYER, William J. Manual de tecnica de la investigacion educacional. Buenos Aires: Editorial Paidos, 1971.

SEM COMENTÁRIOS