Fazenda Phillipson – Os 110 anos da imigração judaica em Santa Maria

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Divulgação 5665 Destino Phillipson
Divulgação 5665 Destino Phillipson

Ricardo Agne Ritzel

Quando Alexandre III assumiu o trono do Império russo, em meados do século XIX, os judeus começaram a serem segregados das grandes cidades, proibidos de estudar, impedidos de possuir propriedades e ainda  exilados e isolados em pequenas aldeias espalhadas pela Europa Oriental.

Neste contexto de perseguição, foram organizadas varias associações judaicas com finalidade de auxiliar essa comunidade perseguida. Uma delas era a Jewish Colonization Association, a ICA, fundada em 1881 e presidida pelo banqueiro, Barão Maurice Hirsch Von Gereuth.

O objetivo era proporcionar aos judeus da Europa Oriental, estudos agrícolas básicos, transporte para países sem restrições raciais e religiosas, lotes de terra para cultivos, equipamentos e animais para o inicio dos trabalhos e escolas para as crianças. Em contrapartida, o imigrante se comprometia a reembolsar as suas despesas com a instituição, entre 15 a 20 anos, garantindo assim, financiamento para novas famílias buscarem uma nova vida na América.

Depois de atuar por mais de 10 anos enviando judeus para os Estados Unidos, Canadá e Argentina, a ICA decidiu investir em um assentamento agrícola no Brasil. Em 1900, um comissão de estudos esteve no Rio Grande do Sul examinando as possibilidades para assentamento em solo brasileiro. Nesta mesma época, o governo do Estado, presidido por Borges de Medeiros, começou a promover incentivos e renúncias fiscais para recolonização e retomada da produção agro-pastoril dos campos gaúchos, ainda ressentidos pela violenta revolução federalista de 1893-1897.

Após dois anos de procura e estudos, a comissão responsável pelo assentamento optou pela aquisição de terras no em Itaara, na época 6º Distrito do Município de Santa Maria. Tudo indica que o principal motivo era a proximidade da linha ferroviária para facilitar o escoamento e venda da produção.

Em 1903, foi efetivada a compra da antiga Fazenda do Pinhal, uma área de 51 quadras de sesmarias, que foi propriedade do coronel João Batista de Oliveira Mello. Na ocasião foi homenageado Franz Philippson presidente da Compaigne Auxiliare de Chemins du Ferré du Brésil, companhia que explorava as ferrovias no Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina. Philippson também era acionista da ICA. Começava então, o sonho agricola judeu no Brasil: a Colônia Philippson.

Alguns meses depois, 148 pessoas chegaram no Gare da Viação Férrea de Santa Maria, dormiram em hotéis do começo da Avenida Rio Branco e, na manhã seguinte, foram levados de trem até a Estação Pinhal, em Itaara.  O calendário ocidental marcava o dia 18 de outubro de 1904. Para os judeus era o ano de 5665.

Quando os imigrantes chegaram a colônia, a ICA já havia construídos uma sinagoga, uma escola e destinado um lote para o cemitério. O lote número um foi oferecido a Shalon Nicolaievisky, em um gesto significativo, já que seu nome em hebraico, significa paz. Os outros 37 lotes foram sorteados.

O velho Barão Hirsch também já havia providenciado um mestre para escola de Philippson. O professor Leon Back lecionava em Paris, em 1902, quando a ICA o enviou para Portugal para aprender o idioma português e, depois, ensinar os filhos dos colonos no Brasil. O novo colégio de Itaara também recebeu as crianças oriundas da imigração alemã radicadas em Pinhal Grande e os filhos de negros das quilombolas da região. A estratégia era a inserção social através do domínio do idioma pela segunda geração de imigrantes.

Porém, logo na primeira colheita os colonos judeus perceberam que as terras de Philippson não eram apropriadas para a agriculturas e, para piorar ainda mais a sitiuação, em 1906, uma praga de gafanhotos devorou todo a pouca plantação de trigo e fumo que vingara nas terras pedregosas de Itaara.

Novamente a Compaigne Auxiliaire foi acionada e passou a comprar madeira dos recém chegados para dormentes, assim como para alimentar as locomotivas da ferrovia. A medida mostrou-se salvadora, mas sem muitas perspectivas para o desenvolvimento do assentamento agrícola judeu em Santa Maria. Os colonos começaram a deixar o local. Primeiro os mais jovens, com objetivo de ganhar a vida na cidade e depois chamar a família. Santa Maria, Cruz Alta e Porto Alegre viram nascer verdadeiras aldeias da Europa Oriental em suas ruas, principalmente no bairro Bonfim, na capital gaúcha.

Com o sonho de uma colônia evaporando pelas dificuldades da vida rural, os judeus começaram a voltar para suas antigas profissões praticadas na Europa.  Entre elas, a compra e venda de mercadorias. E foram estes mascates judeus que revolucionaram o comercio na cidade, inovando com a venda de casa em casa, de loja em loja e, ainda, introduziram crédito nos negócios, prática que ainda não havia chegado ao Novo Mundo. Esta novidade acabou ajudando, e muito, na consolidação e desenvolvimento do hoje vigoroso comercio santa-mariense.

Com o fim da colônia, restaram poucas famílias judias como propriedades de terras na colônia. Hoje, da Colônia Philippson, restam apenas o nome e o cemitério desses primeiros imigrantes que é preservado pela Sociedade Beneficente Israelita de Santa Maria.

*Ricardo Ritzel também é o diretor do documentário Destino Philippson, que marcou o centenário da imigração judaica organizada para o Brasil.

Clique no ícone abaixo e assista na íntegra o curta-metragem 5665 – Destino Phillipson:

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