Meu Sovina Favorito, uma crônica de Eduardo Ayala

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Prof. Dr. Eduardo J. Z. Ayala – eduayala@ibest.com.br

 

“Os avarentos amealham como se fossem viver para sempre, os pródigos como se fossem morrer.”

Aristóteles

 

Foto reprodução
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Vai distante o tempo em que escrevi neste jornal um artigo sobre a inveja e um outro referente à fofoca. Em ambos pretendi, sem assomo de ironia, deslindar apenas e tão somente a tessitura semântica, ou talvez científica, dessas duas condutas inerentes ao ser humano. E neste artigo, que versa sobre a avareza, o intuito é o mesmo. Sim, deveras, e digo isto com a maior certeza e bem distante do benefício da dúvida.

Movido por uma sentença lapidar do papa Francisco, torno a enfocar, desta vez, um outro tema relativamente controverso: a sovinice, a mesquinhez, a somiticaria… A este respeito, o ilustre pontífice diz: “Nunca vi um caminhão de mudanças detrás de um cortejo fúnebre, nunca, porém existe um tesouro que podemos levar conosco, um tesouro que ninguém pode roubar, que não é ‘o que temos poupado’, porém ‘o que temos dado aos demais’”.

Tomás de Aquino mostra-se contundente quando contrapõe a avareza ao desprendimento, à generosidade, ao altruísmo… Nesse caso, a mesquinhez não deixa de ser, com certeza, a crua encarnação da mais glacial indiferença diante das atribulações do ser humano. Gregório Magno, por sua vez, qualifica a sovinice como filha legítima do egoísmo ilimitado e, ainda, como a mãe feraz da traição, a fraude, a mentira, o perjúrio, a iniquidade, a violência e, sobretudo, a dureza de coração.

Michael Soulé, biólogo e professor emérito de estudos ambientais da Universidade de Califórnia, afirma que existem áreas do cérebro capazes de desencadear a cobiça e, consequentemente, o desejo de ter mais e mais”. São, no mínimo, dez centros heterogêneos do cérebro — a maior parte deles situada no sistema límbico, responsável pelas emoções e comportamentos sociais — que atuam quando alguém se vê estimulado a praticar a avareza.

Uma investigação conduzida pelo Departamento de Economia da Universidade de Claremont, na California, indica que a ocitocina, muito mais presente nas mulheres do que nos homens, incentiva a generosidade e o cuidado todo especial com a prole; daí o nome de “droga do amor”. Ao passo que a testosterona, hormônio masculino, amiúde se interpõe no grau de controle na hora de lidar com os gastos, frisa a pesquisa. Em outros termos: os homens são menos perdulários que as mulheres.

Há figuras emblemáticas da somiticaria na literatura — Ebenezer Scrooge” de Dickens, “Harpagão de Souza” de Molière, “Shylock de Shakespeare, “os avarentos do cuarto círculo” de Aliguieri… —, nas histórias em quadrinhos e nos desenhos animados — “O tio Patinhas” de Carl Braks, Montgomery Burns de Matt Groening, “Seu Seriguejo” de Stephen Hillenburg… — e, como não poderia faltar, tais figuras também existem na própria vida real: Michelangelo, Hetty Green, Jean Paul Guetty e por aí afora.

Diz Humberto Mariotti, professor do Centro de Desenvolvimento de Lideranças da Business School São Paulo: “a perversão da dimensão do ‘Ter’… traz conseqüências danosas para a dimensão do ‘Ser’”. De fato, quem já teve um trato social com um tacanho subscreveria, sem titubear, essa ponderação de Mariotti. O apego ferrenho e desmesurado aos bens materiais, e em especial ao dinheiro, reduz a qualquer um à condição de um desprezível homúnculo. E digo mais: quase todo avarento é um vencedor insosso, sem brilho e, ainda por cima, um ser possuído por uma dose cavalar de inveja, porquanto antipatiza gratuita e sorrateiramente com o sucesso dos outros.

Ao longo da vida conheci sovinas de variados naipes e, por isso mesmo, concordo com Gregório Magno, acima parafraseado, quando afirma que temos forretas com as mais diferentes inclinações; desde o traiçoeiro até o duro de coração. Contudo, e sem pretender escrutar a condição humana, eu diria que o pão-duro é o epítome de todos os vícios mencionados por Magno, mas com a visível e inequívoca predominância de um deles.

No íntimo, guardo uma aversão inexpressável pelo mesquinho mentiroso, essa espécie de Harpagão de Souza empanturrado de testosterona e provido de um laborioso sistema límbico. Conheci um deles quando estudante de pós-graduação no exterior; era um compatrício que convenceu um peruano, também pós-graduando, a hospedá-lo por “um par de dias” — tempo suficiente para encontrar um apartamento e mudar-se, claro. Acreditem: não é que o espertalhão ficou a morar de graça mais de um mês na diminuta moradia do castelhano e a sua companheira? Sob o véu de um sorriso afável e rodeado de uma aura angelical, pretextava estar na penúria: a instituição na qual trabalhava se recusava injustamente a repassar-lhe os seus proventos… Não recebera ainda um único tostão do Órgão Financiador da sua bolsa de estudos… Em breve embolsaria um polpudo auxílio da família para acertar as contas com os credores que já criara… Enfim, era uma mentira atrás da outra. Eis senão quando a bonomia incaica do peruano chegou ao fim e o Tio Patinhas desta história, baseada em fatos reais, viu-se no olho da rua de supetão. Voltei ao Brasil: os amigos que ficaram me contaram que ele fez todo o mestrado juntando dinheiro, morando num misérrimo apartamento e comendo arroz de carreteiro, com guisado de terceira, um dia sim e outro também. Agora, não sei por que cargas-d’água o termo “avarento” me remete mentalmente, até hoje, a essa criaturinha escanada… Até parece que se tornou algo assim como meu sovina favorito — vade-retro!

 

 

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