Professor Ayala escreve sobre a pesquisa de motivação

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Professor Doutor Eduardo Ayala

 

Esta variedade de pesquisa busca saber as razões inconscientes e ocultas que levam, por exemplo, o consumidor a utilizar determinado produto, ou que determinam certos comportamentos e atitudes. Assim,… o político não se limitaria a saber quem vota nele, mas “por que” vota nele (Rampazzo, 2005, p. 55). O leitor pode estar imaginando que uma investigação desta natureza pouco ou nada tem a ver com a educação e sim com a mercadologia ou com as preferências pessoais; ledo engano, uma averiguação deste tipo tem marcada relação com a cotidianidade da vida escolar, como veremos depois. Segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, em 2006 o investimento em educação consumiu 4,4% do Produto Interno Bruto brasileiro; um percentual, digamos, razoável. Só no ensino básico (infantil, fundamental e médio), por exemplo, o gasto per capita atingiu o valor de R$ 1.773, o que equivale a R$ 147.75 por mês (Tancredi, 2009). Considere-se esta inversão apenas como uma necessidade por uma taxa de retorno socialcondizente com a previsão do desenvolvimento futuro do país (Ayala, 1980, p. 37). Agora, na minha modesta opinião, o promédio das despesas efetuadas pelo aluno e/ou a sua família, de todas as classes sociais conjugadas em tal ano, foi maior do que esse valor mensal proveniente dos cofres públicos.

No seio do lar o dispêndio com educação não é ínfimo; este comporta exigências que, às vezes, fogem de padrões costumeiros. Afora os gastos essenciais (alimentação, vestuário, moradia, saúde, transporte, material escolar, mesada, etc.), há outros supostamente supérfluos que, analisados sob uma perspectiva psicossocial, chegam a ser até indispensáveis para muitos alunos. Que adolescente ou jovem estudante de educação fundamental, médio ou superior, se pudesse, não gostaria de calçar e vestir produtos de marca? Que razões inconscientes ou ocultas induzem uma criança da pré-escola ou das séries iniciais subsequentes a preferir os cadernos de capa dura e com adesivos e não outros mais flexíveis e lisos? E o que dizer da gurizada que está trocando a mochila de ombro pela de rodinhas com estampas de personagens? Não acredito que os motivos que dão origem a essas preferências sejam de todo inconscientes; um enorme contingente procura, com conhecimento de causa, o que é bom, bonito e lhe agrada de fato.  Isto é natural, assim como também é natural a consciência que temos sobre as nossas limitações para ter acesso a tantas coisas que desejamos. Óbvio, não faltam os que movidos por um consumismo delirante, que eles próprios desconhecem ou negam (razões inconscientes ou ocultas), devoram prateleiras e vitrines até terminar no Serviço de Proteção ao Crédito. Esta compulsão perdulária, além de desaconselhável, pode ser considerada uma exceção que deriva de algum transtorno de ordem psicológico de quem consome.

Porém, numa sociedade como a nossa, co-participe de uma economia liberal globalizada, onde a produção e a comercialização constituem-se em pilares do progresso, podemos enxergar o consumo como algo pecaminoso? Para uns sim, e dirão ainda que isso encarna, com absoluta certeza, uma distorção do significado de liberdade ocasionado pelos efeitos deletérios do capitalismo selvagem. Para outros, o regime de livre mercado não se harmoniza com a pobreza; é imprescindível consumir para criar novos postos de trabalho que redunde no desenvolvimento pleno do país. Quem está com a razão? A resposta final fica a critério do leitor. A este respeito, gostaria limitar-me, isso sim, a relatar alguns episódios factuais que guardam relação com o tema em questão; antes, contudo, esclareço que a minha pretensão está muito longe de instigar os ânimos ou de persuadir alguém.

Quando estudante de doutorado em Pittsburgh, estado da Pensilvânia, assisti in loco a surpreendentes “lanches” pantagruélicos consumidos por pessoas acima de cento e tantos quilos. Notava-se que não comiam por fome física, mas por mera vontade, por puro prazer de continuar a saborear o hambúrguer, a pizza o sorvete… Mastigavam e saboreavam de forma inconsciente, olhando o infinito e engolindo com indizível voracidade maquinal o que tinham pela frente; eram pessoas simples, com precária formação educacional e cultural, mal sabiam eles onde ficava o Brasil ou que cidade era a capital da Argentina. Em suma, pertenciam à estirpe do operariado que surgiu depois do “boom” econômico americano dos anos 50: homens e mulheres que se recreavam comendo num mundo de fartura que eles, quando crianças, e seus pais desconheceram.

Também tive a oportunidade de andar por Cuba e pela extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), surpreenderam-me muito as belas paisagens que contrastavam com os rostos indiferentes e nada acolhedores com os estrangeiros. Parecia gente possuída pelo medo, evitavam a toda hora entabular uma conversação que não fosse protocolar, imagino que fugiam da contaminação capitalista ou talvez das suspeitas demolidoras do patrulhamento ideológico comunista. Mas, em certas circunstâncias, havia os que desafiavam o sistema ou estavam em conluio com ele para agir contra a apregoada lisura e moral socialistas. Nesse sentido, as duas coisas que mais me chocaram foram a exuberância da prostituição em Cuba e a avidez do soviético por tudo o que era ocidental, desde o dinheiro (dólar, marco, franco, libra…) até um par de tênis, uma jaqueta ou uma calça jeans. Nesses povos a distribuição de bens e serviços ficava, e ainda fica, por conta do Estado, sem nenhuma opção de escolha para o consumidor, era e continua a ser uma espécie de “ou levas ou largas”; vejamos só um exemplo: na URSS quando o maioral era Konstantin Chernenko, um linha dura à la Brezhnev, me lembro, como se fosse ontem, da tremenda confusão ocasionada pela venda de um produto de higiene no mercado Gum de Moscou. Desde um stand se estendia uma imensa fila e eu, sem conseguir controlar a minha curiosidade, aproximei-me para ver do que se tratava. Todos aguardavam impacientes pelo início da venda de xampu; lá pelas tantas uma senhora gorda e bem posicionada detrás do balcão emitiu um estridente grito: “Só um por pessoa”. Disciplinadamente, os camaradas iam comprando o xampu sem marca nem indicações para seu uso; mesmo assim, ficavam radiantes de felicidade olhando o frasquinho como uma estrela de Hollywood aprecia a estatueta do Oscar após tê-la conquistado. Quando a referida senhora diz: “Este é o último e fica para mim”, Deus nos acuda, os que não foram “agraciados” com a compra, e que não eram poucos, partiram para cima dela com o decidido intuito de arrancar-lhe das mãos a dita “jóia” higienizante. Aí começou uma balbúrdia generalizada cujo desfecho não quis assistir por ser forasteiro e alheio a tudo o que estava acontecendo e, mormente, por um sentimento de comiseração e de uma abrupta revolta que me invadiu de súbito (Ayala, 2005, pp. 25-26).

Voltando à definição inicial de Rampazzo, observa-se que a pesquisa de motivação também busca saber o porquê de certos comportamentos e atitudespredominantes em determinados grupos sociais. Assim, que razões explícitas ou não levam à maioria dos gaúchos a consumir erva-mate com tamanha assiduidade? Por que motivo a imigração alemã escolheu a região sul do Brasil para fixar residência? Que fatores determinam para que o curso de pedagogia congregue mais mulheres do que homens? Se no cenário político e fora dele há corruptos e corruptores prestes à punição, por que razão inexplicada o efeito da lei é extremamente protelatório e leniente com ambos? E agora vem o mais preocupante: por que insistimos em reeleger esses fisiologistas velhacos que somente se preocupam em encher os bolsos enquanto o povo fica a ver navios? Na mesma citação acima, o autor em pauta diz: Assim,… o político não se limitaria a saber quem vota nele, mas “por que” vota nele. Em tal caso não acredito que os nossos políticos necessitem de uma acurada pesquisa de motivação para saber “por que” votamos neles, até mesmo porque nunca foram diligentes conosco. Esses matreiros já conhecem o aroma e o sabor do caldo cultural da politicagem do nosso país, sabem que o povo brasileiro esquece rapidamente os seus ilícitos e que mais dia ou menos dia ou quiçá nas próximas eleições já estarão retornando triunfalmente ao poder. Estou falando grosso? Não, somente a verdade: a oligarquia Sarney continua despedaçando o Maranhão e ditando as regras do jogo das articulações sub-reptícias no meio político. J. Barbalho, F. Collor, J. P. Cunha, todos corruptos, estão de volta ao Congresso como se nada tivesse acontecido; R. Calheiros, acusado de quebra de decoro, converteu-se agora em mola mestra da instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito da Petrobras visando obter lucros pessoais… Enfim, os políticos não estão nem aí para saber “por que” votamos neles; ao contrário, somos nós os que devemos ter a absoluta certeza de que sabemos “por que” escolhemos este ou aquele representante.

 

Post-Scriptum: O grande e velho mestre John W. Best já assinalava que a pesquisa de motivação põe em relevo os sentimentos e desejos ocultos dos consumidores. Recorrendo à técnica da entrevista psicanalítica, segundo ele, é possível desvendar esses traços psicológicos inconscientes que o próprio consumidor desconhece. Assim: Os investigadores da motivação afirmam que um auto é muito mais do um meio de transporte. É uma expressão do que um indivíduo quer ser ou do que pensa que ele é. O carro é, então, um instrumento de auto-expressão. Quando se perguntou a um sujeito que qualidades ele desejava num auto, contestou nesta ordem: economia, aparência, confiança, comodidade e segurança. Mas, quando se lhe pediu que respondesse sobre as qualidades que seus amigos consideravam mais importantes num carro, retrucou nesta ordem: aparência, tamanho e número de cavalos. Do resultado desta entrevista conclui-se que: as preferências atribuídas pelo entrevistado a seus amigos são realmente os seus próprios motivos ocultos. Está projetando seus próprios desejos de poder e de prestígio: quando compre um auto será, com certeza, sobre a base da aparência, tamanho e número de cavalos. Além da entrevista psicanalítica, Best recomenda o recurso aos questionários e às entrevistas convencionais quando a motivação humana — um tema tão espinhoso, porém ponderável — é objeto de conhecimento do pesquisador (Op. cit., 1969, p. 70).

 

BIBLIOGRAFIA:

AYALA, Eduardo J. Z. “Planejamento educacional: enfoques, processo e agentes”. In Revista do Centro de Educação. Santa Maria, Centro de Educação, Imprensa Universitária – UFSM, V. 3, N. 1, 1980.

______. “Igualitarismo, diferenças individuais e pesquisa em educação: um breve ensaio.” In Cadernos de Ensino, Pesquisa e Extensão. Centro de Educação/LAPEDOC – UFSM, Santa Maria, N. 67, 2005.

BEST, John W.. Como investigar en educacion. Madrid: Ediciones Morata, 1969.

RAMPAZZO, Lino. Metodologia Científica: para alunos dos cursos de graduação e pós-graduação. São Paulo: Edições Loyola, 2005.

TANCREDI, Letícia. Brasil investe mais em educação. Gestão Universitária – Companhia da Escola. Obtido por download emhttp://www.gestaouniversitaria.com.br/index.php/noticias/20122-brasil-investe-mais-em-educacao.html. Acesso em 3 de maio de 2014.

 

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