Desafio de redigir, por Celina Fleig Mayer

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EI dever más importante de mi vida es, para mi, el de simbolizar mi interioridad. (HebbeI)

 

*Celina Fleig Mayer – jornalista

Foto reprodução
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Quem trabalha com redação está de acordo num ponto: sem leitura não há sobre o que escrever. E a leitura parece não ser um exercício que pode ser ensinado nas escolas, quando nem os pais, em casa, conse¬guem o milagre de filhos ávidos por livros. Não adianta colocar diante deles todo o tipo de impressos, dos mais ilustrados aos menos atraentes. Por outro lado, há crianças que já nascem, aparentemente, movidas pela curiosidade, pelo novo, pela necessidade de saber sempre mais. A leitu¬ra, para elas, é uma atividade que as leva, continuamente, a aprofundar-¬se em vários assuntos, da política à assistência social, da educação ao turismo.

Então, no momento que o leitor contumaz for solicitado a redigir qualquer tipo de discurso, naturalmente terá argumentos a colocar, sem dificuldades. Saberá motivar e emocionar num texto festivo; escreverá sobre a dor, de uma forma que qualquer pessoa sinta-se irmanada pela coincidência dos sentimentos expostos, iguais ao que ela tem no seu íntimo e que jamais saberia extravasar.

Quem escreve consegue dizer-se, posicionando-se através de ar-gumentos consistentes, nascidos do conhecimento e da experiência no convívio com ideias aprendidas e incorporadas à própria experiência de vida.

No caso de um exame de seleção, redigir nunca será um desafio, antes uma comprovação de competência, um estímulo e uma oportuni-dade de provar, a si mesmo e aos outros, que a inquietação pela busca de ideias consolidou-se em certezas. E daí surge a capacidade de se ter opinião individual, baseada, não na prepotência de sentir-se dono da verdade, mas na liberdade de pensar por si próprio. Temos, então, o testemunho do homem como ser único, uma personalidade ímpar e que, como tal, pensa e expressa-se.

Ainda há quem discuta a validade da redação no vestibular, ale-gando que lhe é dado um peso excessivo na soma da média geral. Como poderia alguém habilitar-se a uma carreira, seja ela qual for, da área médica à área tecnológica, sem saber dizer-se, isento de opinião, desco-nhecendo o tipo de profissional que teremos amanhã, se hoje ele não sabe expressar-se na sua área de trabalho, e nunca conseguirá publicar uma experiência que enriqueceria colegas de profissão?

Se há crianças que nascem ávidas de conhecimentos, lêem tudo o que encontram, como fazer com que outras, passivas sobre os fatos, desinteressadas pelo que acontece além de discutíveis programas da telinha da televisão, também despertem para a inquieta necessidade de fazer parte do mundo? É um desafio que merece estudos, já que até hoje várias teorias e iniciativas não resolveram a questão. Talvez queiramos responsabilizar os sobrecarregados professores do primeiro grau. Mas, antes deles, a tarefa poderia ser delegada aos pais, especialmente aque¬les que estão envolvidos com o ensino ou têm acesso à cultura. E, se nem o empenho destes consegue que seus filhos terminem o segundo grau, entendendo de leitura, então é o caso de delegar-se a esses pré-vestibulandos a busca da complementação da própria cultura, uma vez que podem avaliar o tempo perdido e a necessidade de recuperá-Io.

Já se disse que o exercício da escrita é um momento de solidão, mas é nesse tempo que se dá o encontro do ser humano consigo mesmo e com o universo. E quem vive dessa tarefa, escrevendo, sabe o que é a realização plena.

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