Pasin, a Farmácia e a UFSM

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Foto reprodução
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Irineu Pedro Pasin tem 81 anos e uma memória fantástica. Ele lembra com exatidão fatos e conversas que aconteceram há mais de 60 anos. Ainda mais se o assunto for a UFSM, instituição que acompanhou de perto todo o seu processo criação e ainda foi um dos seus primeiros professores.

Acompanhe agora algumas de suas recordações:

Imaginado o futuro

Em 1954, eu era aluno do segundo ano da Farmácia naquela casa velha que havia no terreno ao lado onde estavam construindo a antiga reitoria na Rua Floriano Peixoto.

Lembro que em abril daquele ano, aumentou muito o número de colegas, já que o Curso de Medicina havia sido criado em Santa Maria e também se transferiu para lá.  O novo curso também era ligado a então Universidade do Rio Grande do Sul, assim como a Farmácia, onde me formei um ano mais tarde, em 1955. Tanto que o reitor da URGS vinha da capital especialmente para presidir as cerimônias de formaturas. O Irineu Pagliori fazia questão disto, exigia a data com antecedência para fazer agenda. Enfim, estávamos sob a batuta de Porto Alegre.

Recordo também nitidamente desta época que o pessoal já demonstrava um descontentamento por serem considerados excedentes da universidade porto-alegrense.

É certo que o Mariano já estava vislumbrando fundar a Faculdade de Medicina por aqui, com administração nossa, santa-mariense. Tanto que construiu o prédio com sete andares, quatro a mais que os três previstos, e colocou lá símbolo da Farmácia e também o da Medicina. Ele já estava planejando isto há tempos. Estava criando uma estrutura para a implantação de uma universidade. Eu acredito nisto. Naqueles anos havia muita oposição para expansão do Ensino. Mas ele lutou muito, teve várias frustrações, e no fim venceu.

O começo da carreira

Depois de formado, estava esperando o meu diploma (que naquele tempo demorava um ano para vir de Brasília) na expectativa de comprar uma farmácia em Carazinho e, durante esta espera, o Irmão Leão me convidou a lecionar Biologia no Colégio Santa Maria. Foi aí que eu comecei a trabalhar como professor.

Um dia, a funcionária do Colégio, a dona Ruth, me passou uns papéis e enfatizou que eu precisava assinar. Feliz por pensar que era o diploma,  me surpreendi ao ver um contrato entre o Irineu Pasin e a Universidade do Rio Grande do Sul. “Foi o doutor Mariano que deixou aqui, Pasin. Ele quer que você seja professor”, ela me disse.

Em março de 1957 eu já era o professor de Microbiologia da Farmácia, Medicina, Odontologia e Veterinária, na mesma instituição onde, meses antes, havia me formado.

Especialização no Rio. Voltar melhor

Com a estatização das faculdades em Santa Maria, os professores daqui começaram buscar Especialização nas grandes universidades brasileiras. Eles começaram a sair para voltar mais preparados, com uma carga maior de conhecimento para transmitir a nossos alunos.

E a partir daí, 1958, 1959, houve uma grande melhora no ensino de Farmácia e Medicina em Santa Maria. E foi aí que eu fui para o Rio de Janeiro me preparar, voltar com outra visão, outro padrão. Fiquei lá até o primeiro semestre de 1960. Quando eu voltei, já éramos uma universidade. Foram muito importantes estes financiamentos para os nossos professores se especializarem. Mudou tudo, e para melhor, tanto que rapidamente percebi que o ensino feito aqui era igual ou melhor que o produzido lá no Fundão, na Universidade do Rio de Janeiro, onde me estudei.

O sonho virou realidade

No governo do Leonel de Moura Brizola, foi votada uma verba através de um decreto, doando em Títulos Estaduais, as chamadas “Brizoletas”, para aquisição de uma área para fundar uma escola de Agronomia e Veterinária em Santa Maria. Mais precisamente na área onde hoje está a Estação Experimental, na Boca do Monte. A princípio, a UFSM seria lá.

Mas havia uma oposição muito grande, em Porto Alegre, pela criação do Curso de Medicina em Santa Maria, ainda mais para fundar uma universidade no interior do Estado. Então, eu não vou dizer o nome porque ainda vive, havia um deputado que se colocou energicamente contra a essa doação e conseguiu que fossem bloqueados esses recursos, frustrando, e muito, os planos de expansão do Ensino em Santa Maria do Mariano da Rocha.

“Eu não sei o que este moço tem contra nós”, reclamou o Mariano para nós na manhã seguinte a decisão contrária à seus planos.

Neste mesmo período, aconteceu a doação da área pelas famílias Tonetto e Behr e os projetos de uma universidade se transferiram para lá, onde acabaram se concretizando.

Foi então que as incipientes Faculdades de Veterinária e Agronomia se uniram, por exigência de Lei, a outras Faculdades de Santa Maria (Economia e Direito dos irmãos Maristas; Filosofia das irmãs Franciscanas; Centro Politécnico) e foi criada, por decreto do presidente Juscelino Kubistchek, a Universidade Federal de Santa Maria.

Brizola, então, por vias indiretas, resolveu ajudar e conseguiu que os recursos bloqueados fossem transformados em bolsas de estudos para viabilizar que estudantes carentes oriundos do meio rural de cidades próximas conseguissem se transferir para Santa Maria e estudar.

 

 

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