As doses certas do amor, uma crônica de Celina Fleig Mayer

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Celina Fleig Mayer*

Içami Tiba, psicólogo renomado e autor de várias obras que alguns classificam de  auto-ajuda, afirmou que “amor demais faz mal”. Estranhei um pouco, mas lembrei de fatos, especialmente de pais em relação aos filhos, que consideram que estes “são tudo para eles”. E, em cima disso, os criam  na maior benevolência, cuidando de jamais pronunciar um reles “não”. São adultos, às vezes até muito exigentes com todos ao seu redor, tanto no trabalho como nos momentos de descontração. Mas os filhos, seus tesouros, são inatacáveis e jamais deverão sofrer a mínima reprimenda.

Na Escola onde lecionei havia dois meninos, irmãos, na faixa dos 10 e 12 anos. O menor era normal, comedido, uma graça. O mais velho era tudo o que um professor não merecia ter presente numa sala de aula. Então, na disciplina  de religião, que era optativa, a maioria não queria assistir, mas não podia ficar desocupada. Os alunos eram encaminhados para a Biblioteca, onde deveriam escolher algum livro e, no final do período,  tinham que apresentar um resumo do que leram. Eu devia recolher esses trabalhos, mas a bagunça era tanta que chegava no intervalo e ninguém tinha concluído qualquer tarefa. Então deixava por isso mesmo. Por que me cansaria com uma atividade que não acrescentava nada na vida deles?

Mas, voltando ao menino de 12 anos, eu o ignorava nessas substituições de aulas, mas nem todos os professores podiam ser condescendentes, já que havia conteúdos a apresentar e ele perturbava demais o desenrolar dos trabalhos. Então, por decisão unânime, o pai do adolescente foi chamado à Escola. Ouviu as reclamações com um ar de zombaria e, ao término das queixas, disse, ao corpo docente reunido, que o problema eram eles, os professores, que não tinham sido treinados para lidar com um aluno de inteligência acima da média como  seu menino!

Os mestres da Escola  ficaram danados com isso. E, alguns anos depois, sem ter concluído o segundo grau, ele engravidou uma menina de 14 anos, com quem quis morar, sustentado, naturalmente, pelos amorosos futuros avós. Encontrei, nessa época, a mãe do guri bastante aflita com a situação, pois era, além de  cumpridora das leis divinas,”  defensora da moral e dos bons costumes”. Havia mais gente nesse encontro, e eu disse a ela que, hoje, não eram apenas as meninas que causavam preocupação aos pais, tornando-os avós prematuros. Ela seria avó, mesmo tendo dois filhos homens, e parecia viver um problema que a deixou muito envergonhada. Por algum tempo se queixou, em vez de ficar quieta, dando satisfação a quem não devia por onde andava e encontrava conhecidos. Por fim, se acostumou com a idéia, embalou a netinha o quanto pode. Um ano e pouco depois,  eu já a encontrava na  Igreja, exibindo uma menininha linda, com um ar de satisfação e orgulho, que só as avós sabem exibir. Amor demais: em vez de acompanhar a cerimônia religiosa, ficou o tempo todo correndo atrás de um anjinho danado.

Aliás, não entendo essa obrigação que certas avós se cobram em relação a netos. Eles têm pais, não são órfãos? Então! A tarefa é deles e não dos genitores, que se comprometem com encargos  que não lhes cabem. Os jovens têm “pique”, desenvolvem bem, é só deixá-los assumir. Claro que, no caso de sermos a geração sanduíche, com pais idosos ou doentes, já é outra história. Aí devemos ampará-los e cuidá-los. Se não dá para ter “amor demais”, (vai-se saber o que eles “aprontaram na nossa vida!) o mínimo que temos a oferecer é muita paciência e compreensão.

*Celina Fleig Mayer é jornalista

 

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