História – A Fundação de Santa Maria, artigo de Eduardo Rolim

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Mapa histórico de Santa Maria
Mapa histórico de Santa Maria

Detalhe do mapa do Engenheiro Chagas Santos (o primeiro mapa da região). Em destaque aparecem o Cerro Corcovado, onde fica hoje o Monumento dos Ferroviários; o Cerrito, que caracteriza Santa Maria e o Cerro do Cardoso, que ficava perto da Estância do Padre Ambrósio.

 

 

 Eduardo Rolim*

Nossa região vem sendo local de assentamentos humanos desde tempos imemoriais. Pesquisas efetuadas por professores da UFSM demonstraram a existência de sítios arqueológicos de populações ameríndias nessa região. O homem branco chegou por aqui muito depois. As primeiras notícias datam de 1634, quando o padre jesuíta Adriano Formoso estabeleceu uma redução que denominou S. Cosme e S. Damião. Segundo descrições existentes nos documentos da coleção De Angelis, compilados por Jaime Cortesão , o local corresponderia ao Campestre do Menino Deus, pois o padre Francisco de Avendaño, cura da redução de S.Luiz, em documento datado de 1698, refere o achado de tijolos, paredes e esteios da antiga casa do padre Adriano, justamente naquele local, fechado por montanhas por todos os lados e tendo o rio Vacacaí Mirim na sua única entrada.  Ali foi estabelecida uma invernada depois de ingentes trabalhos de desmatamento realizado por 15 indios comandados por Lorenzo Abayebi(“gran Baquero”)e que 30 anos antes havia aberto uma picada na serra (subida do perau) para o manejo das boiadas existentes nas planícies gaúchas, que ficou conhecida como Estrada Real das Vacarias do Mar. Essa invernada, destinada ao descanso das tropas que subiam a serra para alimentação das populações dos 7 Povos, pertencia a uma estância de propriedade da redução de S. Luiz, que atingia vasto território, indo desde o sopé da Serra Geral (Monte Grande) até Caçapava, nas nascentes do Vacacaí Grande, englobando territórios que hoje pertencem aos municípios  de S. Gabriel, São Sepé e Santa Maria. Essas estâncias se destinavam a juntar o gado chucro que vagava nas pradarias gaúchas e uruguaias desde a retirada dos primeiros jesuítas, em 1638-39, acossados pelos bandeirantes que aqui vinham prear os índios reduzidos para leva-los para S.Paulo como mão de obra escrava.

Nessa invernada de S. Luiz, os índios construíram três galpões e um oratório. Muito provável que daí se originasse o nome de Oratório de Santa Maria, conhecido dos viajantes que por aqui passavam, muito antes da chegado dos portugueses. O rio Vacacaí Mirim servia de divisa entre as estâncias pertencentes aos povos de S. Luiz e S. Miguel, existindo documentos das disputas que se originavam dessa vizinhança.

Com a expulsão dos jesuítas, todas essas pradarias começaram a ser povoadas por portugueses, ávidos das riquezas oriundas da exploração dos imensos rebanhos vacuns e cavalares ainda existentes. A Coroa portuguesa começou a doar sesmarias aos súditos que se propusessem a fixar residência permanente e defende-las das investidas espanholas.

Em 1789, o Rincão de Santa Maria é concedido em sesmaria a Francisco Antônio Henriques de Amorim (13.068 ha.), residente na Freguesia de Nossa Senhora da Cachoeira, onde era sesmeiro desde 1780. Nunca desfrutou sua nova sesmaria e logo a vendeu ao Padre Ambrósio José de Freitas. Em 1791 o Pe. Ambrósio recebeu permissão para confessar no oratório de sua estância, cuja sede ficava na região ao sul do cerro do Cardoso (ou do Abraham), nas margens do atual Arroio Cancela. Entrementes, a região era toda dividida em sesmarias, entregues aos primeiros moradores: Antonio Dias Gonçalves (nas Tronqueiras), Rosa Maria de Souza (a oeste do Passo D’Areia), Antonio da Costa Pavão (no Banhado de Sta. Catarina), Inácio Veloso da Fontoura (na Restinga Seca), Policarpo José Soares de Lima (no Arroio do Só), somente para citar alguns dos inúmeros moradores da região.

Alguns anos mais tarde, em julho de 1797, chega a esta região a Partida da 2ª Subdivisão da Comissão Demarcadora dos limites entre terras de Portugal e Espanha. Acampa em terras da estância do Padre Ambrósio, na crista da coxilha onde hoje se assenta o centro da cidade: Praça Saldanha Marinho e Rua do Acampamento.

Até inícios de 1798 foram chegando os demais componentes da Comissão Demarcadora, entre os quais o Pe. Euzébio de Magalhães Rangel e Silva, que, como capelão, logo instalou o altar móvel na capelinha construída junto ao acampamento. Já no dia 17/02/1798 foi registrado o primeiro batizado: a criança recebeu o nome de Florisbela.

Faziam parte da Comissão acampada o Dr. José de Saldanha, astrônomo, Francisco das Chagas Santos, engenheiro, que elaborou o primeiro mapa da região, onde localiza as estâncias existentes e suas respectivas sedes. O acampamento da comissão está perfeitamente localizado, com 5 galpões, 2 no sentido leste-oeste em terreno onde se encontra a Praça S.Marinho e 3 no sentido norte-sul, sobre o traçado da atual Rua do Acampamento. Em torno desse núcleo inicial, foram construindo seus ranchos os militares acompanhados de suas esposas e os comerciantes que forneciam a tropa. Cresceu rápida a novel povoação, atraindo para seu derredor os moradores da região e os recém-chegados. As primeiras ruas foram se delineando, todas chegando ao núcleo do acampamento. A Pacífica, que demandava o Passo D’Areia, origem da Rua Dr. Bozano. A São Paulo que logo ficou conhecida como Rua do Acampamento.

Com a conquista das Missões – epopéia da qual participou Manoel dos Santos Pedroso Fº (Maneco Pedroso), morador nesta região, na estância do Sarandi, hoje pertencente ao Campo de Instrução do Exército – a Comissão Demarcadora foi deslocada para cima da serra, com a missão de ocupar os territórios incorporados à Província de São Pedro do Rio Grande.

Após a retirada da Comissão, o rancherio foi ocupado pela população que, nessa época já ascendia a umas 400 pessoas. Logo também chegaram índios missioneiros que se estabeleceram na Aldeia dos Índios, região hoje ocupada pela Praça Roque Gonzalez, Hospital de Caridade e imediações, entre as duas sangas: a que nasce perto da Rua do Acampamento, no trajeto paralelo à Rua Tuiuti e a outra que nasce nos fundos do Hospital de Caridade, mais próximo do Colégio Centenário. O caminho que passava pelo centro da Aldeia e ligava com a Rua do Acampamento é hoje a Rua Pinheiro Machado e sua extensão originou a Av. Presidente Vargas

Até então, nada do que aqui se fez teve caráter de permanência, tanto que o Pe. Ambrósio passou a reivindicar a desocupação de suas terras. Nesse momento, porém, surge um homem com a determinação de dar continuidade ao núcleo urbano nascente. Opondo-se ao desejo do Pe. Ambrósio, o Capitão Manoel Carneiro da Silva e Fontoura – comandante do Distrito Militar do Vacacaí, criado logo após a dissolução da Guarda Portuguesa do Passo dos Ferreiros, em 17/02/1802 – requereu licença para erguer um oratório público no Acampamento de Santa Maria. A licença foi concedida e o Pe. Ambrósio, descontente, retirou-se para S. Borja onde assumiu o vicariato.

O Cap. Carneiro da Fontoura tornou-se o líder natural, não só por ser a pessoa mais importante, mas porque teve, desde o início, a determinação de dar as condições de desenvolvimento para a povoação.

A 17/02/1804 o Acampamento de Santa Maria é elevado à categoria de Oratório, primeira etapa da oficialização da nova povoação. A13/05/1804 dá-se o primeiro batizado. Em 1805 são feitas as primeiras concessões de terrenos públicos, sempre sob informações prestadas pelo Cap. Carneiro da Fontoura. Em 10/08/1807, por iniciativa do mesmo líder comunitário, foi instalada a primeira olaria, no local conhecido como Alto da Eira, atual Benjamim Constant, imediações do Colégio Coração de Maria. Em 29/02/1808, o Cap. Carneiro da Fontoura contrata (e provavelmente custeia) a construção da primeira capela de Santa Maria, dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Em 28 de maio desse ano, recebem terrenos, no centro da nova povoação, várias pessoas importantes, entre elas o Cap. Carneiro da Fontoura que recebeu o terreno de esquina onde hoje existe o prédio da União dos Viajantes. Francisca Margarida da Fontoura, sua esposa, recebeu o terreno onde hoje está o Clube Comercial.

O nome de Santa Maria da Boca do Monte aparece pela primeira vez em documento oficial do ano de 1809. O nome surgiu da composição do antigo oratório jesuítico com a denominação indígena da antiga picada que dava acesso a São Martinho. Os índios chamavam essa picada de “caá-yuru” (boca do mato). Os espanhóis que primeiro aqui chegaram adotaram o mesmo nome: em espanhol – Boca do Monte. Os portugueses, que vieram 150 anos depois, continuaram a usar a denominação já consagrada.

Em 28/07/1810 o Oratório de Santa Maria é elevado à Capela e, em 27/07/1812 à Capela Curada sempre atendendo requerimentos do Cap. Carneiro da Fontoura. Nessa época Santa Maria já contava com uma população de 800 habitantes.

Manoel Carneiro da Silva e Fontoura morou em Santa Maria durante 19 anos e esteve ligado a todos os fatos importantes que consolidaram a povoação. Era homem de muitas posses. Nos arredores de Santa Maria possuía uma área considerável, que abrangia terrenos que constituíam a Chácara do Ipê, no final da Rua do Acampamento (Colégio Centenário, Sulbra, antiga Rodoviária). Tinha três léguas de sesmaria no Pau Fincado; Seis léguas quadradas de campo no Durasnal de Santiago e mais terras em São Martinho. Como militar percorreu todos os postos do Exército, sendo reformado como Brigadeiro e promovido, depois, a Marechal. Representou o Rio Grande do Sul na embaixada popular ao Príncipe D.Pedro, tendo falado em nome da província no episódio do Fico. Possuía as Ordens de Cristo e do Cruzeiro e as medalhas das Campanhas do Sul. Em 25/11/1841, requereu ao Imperador o título de “Barão de Santa Maria da Boca do Monte”, que foi negado e isso lhe causou grande mágoa. Quatro meses depois, a 23/04/1842, morria em Porto Alegre. Foi o maior nome nos primeiros anos de existência de Santa Maria e o maior responsável pela sua sobrevivência e evolução como cidade.

No requerimento ao imperador ele justificou sua pretensão dizendo-se o fundador da cidade. Durante os anos que aqui residiu esteve sempre à frente dos interesses da população, lutou pela sua continuidade e contribuiu, fortemente, para o seu desenvolvimento. Na capela que construiu, situada onde hoje se encontra a herma do Cel. Niederauer, deixou sepultada sua primeira esposa. Anos depois, ao final do século XIX, ao ser demolida essa capela, o material de sua construção serviu para edificar as bases do nosso Teatro 13 de Maio.

O Marechal MANUEL CARNEIRO DA SILVA E FONTOURA se constituiu no primeiro cidadão de Santa Maria e deve ser considerado seu verdadeiro FUNDADOR.

 

*Eduardo Rolim é médico em Santa Maria e colaborador do Jornal da APUSM

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