“Manhã de sábado, Calçadão, 1981” – Artigo do professor Luiz Gonzaga Binato de Almeida

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Fotografia: analógica , Santa Maria, 1981, autoria Ceura Fernandes, P&B, 13 x 18 cm, acervo da fotógrafa.
Fotografia: analógica , Santa Maria, 1981, autoria Ceura Fernandes, P&B, 13 x 18 cm, acervo da fotógrafa.

Luiz Gonzaga Binato de Almeida – Arquiteto e professor universitário aposentado

Recém aqui radicado, projetei o Calçadão desta cidade.   Consciente de tocar em ponto sensível do usuário da eterna “Primeira Quadra”, procurei consagrar a tradição: passeio, comércio e encontro de pessoas. Inaugurada em maio de 1979, a obra sofreu degradação contínua. Em inícios deste século, um novo projeto destruiu o que havia do original. Nada restou. Agora, do primeiro Calçadão, só em fotos ou na memória dos que o conheceram.

Deformações e descasos à parte, nosso maltratado Calçadão persiste como vívido espaço democrático. Não vê cor, credo, partido ou categoria. Para tal o concebi e, nisso, permanece. Há quase quatro décadas.

Essa fotografia, de 1981, registra um especial encontro no Calçadão que projetei (obra ainda nova, com no máximo dois anos). Era manhã de sábado (alvoroça-se o Calçadão em tais manhãs). Celebridades, próximas à Galeria do Comércio: Cláudio Cardoso (“Claudinho”), Iberê Camargo, sua esposa Maria Coussirat Camargo, Edmundo Cardoso e Gaspar Miotto.

Iberê Camargo, ícone da arte brasileira, filho dos ferroviários  Adelino e Doralice, estudou em Santa Maria. Dos doze aos treze anos, foi aluno na  Escola de Artes e Ofícios, da Cooperativa. Hospedava-se na casa de Francisca Badke Pedroni, sua avó pelo lado materno. A residência, muito desfigurada, ainda existe. Fica na rua Visconde Ferreira Pinto 961 e 963, bairro Itararé. O acervo do artista inclui desenhos de interiores desta morada. “Cozinha da Vó Chiquinha”, de 1941, é um dos títulos.

Na referida Escola, Iberê recebeu iniciação em desenho com os professores Frederico Lobe (1927) e Salvador Parlagrecco (1928). Como testemunho, muito posterior, da breve passagem pela Artes e Ofícios, pintou seu autógrafo, ainda legível, em uma parede da antiga capela dessa Escola. Funciona ali, agora, uma cafeteria, a Dom Pierre (O sagrado deu lugar ao profano.).

Ainda lembro o apoio dessa sumidade à campanha, à qual eu me integrara, pela salvaguarda do prédio da aludida Escola. Mariza Carpes, artista amiga de Iberê, intermediou meu pedido para esse ex-aluno declarar seu amor pelo edifício ameaçado. De pronto, ele firmou mensagem. Do próprio punho. Lacônica. Contundente. Satisfeito, recebi o precioso trunfo. Imprimi cópias e logo as distribuí, durante o 4.º Encontro Estadual de Faculdades de Arquitetura, sobre Patrimônio, cá ocorrido em 1987. O mote principal do evento era a dita salvaguarda.

Iberê sempre revisitava esta terra. Com o amigo Edmundo Cardoso, quase irmão, a quem chamava de “Edo”, revia gentes e cenários da meninice. Mesmo a ama, “Dona Currucha” (Maria Olivia de Oliveira), continuou alvo dos seus mimos, aqui.

Quanto à Maria Coussirat Camargo, também artista, protegeu  a produção, a vida e o nome do marido. Viúva em 1994, detentora de um legado magnífico, lidera, a partir do ano seguinte, o germinar da Fundação que perpetua e democratiza a obra de Iberê. Para essa entidade, doa sua coleção, composta por mais de 5.000 obras de arte, além de documentos. Coube o projeto da sede da Fundação a Álvaro Siza Vieira, expoente da arquitetura contemporânea portuguesa. O fato insere Porto Alegre no circuito internacional de trabalhos desse consagrado luso. (O projeto recebeu o “Leão de Ouro”, na 8.ª Bienal de Arquitetura de Veneza, em setembro de 2002.). Tantos gestos de lucidez, dedicação e desapego enobrecem a esposa do artista, a qual faleceu em 25 de fevereiro de 2014.

Também fotografados, o polifacético intelectual Edmundo Cardoso e seu filho Cláudio constituem marcas indeléveis no quotidiano de Santa Maria. O Calçadão, sem “Claudinho”, seria o mesmo? Popular, atencioso, sempre com novidades e a entabular  conversas, denota educação de berço. Um “gentil homem” (tem a quem puxar).

A foto mostra, ainda que de costas, o jornalista e professor Gaspar Miotto. Sua esposa, Ceura Fernandes, é presença por detrás da câmara. Registrou a cena. Sou grato a ambos pelo convite para colaborar com o A Razão. Primeiro, contribuí através de artigos; depois, na coluna “Imagens da História”. Sem restrição ou censura, por quase um decênio, redigi textos-legendas sobre fotos referentes à memória, sobretudo de Santa Maria. Aprofundei, assim, meus saberes sobre esta urbe.

Na dinâmica das cidades, mudam as pessoas, as tecnologias, os hábitos. Certos territórios, todavia, permanecem constantes em seu uso. É o caso do nosso Calçadão, onde sinto tanto prazer ao encontrar amigos. Basta um cumprimento, um alô fugidio, às vezes um espichado diálogo, para me sentir vivo. Animado. Pulsante.

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