A ideologia do envelhecimento – Uma crônica de Máximo Trevisan

0

                                             

Foto reprodução
Foto reprodução

                                                                                              Máximo José Trevisan*

                        Li, há tempo,  uma instigante entrevista de Larisssa Roso com Alexandre Kalache, médico carioca, então presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil e copresidente da Aliança Global, que reúne centros de 17 países.  Doutor em Saúde Pública pela Universidade de Oxford, referência no Brasil e no Exterior, em envelhecimento e longevidade, por mais de uma década foi diretor do Programa Global de Envelhecimento e Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS). Como pesquisador e especialista, ele faz uma proposição inovadora, “a ideologia do envelhecimento ativo”, em que viver bem pressupõe ter acesso à saúde, ao conhecimento, ao capital social (pessoas com quem contar) e aos recursos financeiros. Pensar no futuro é fundamental, afirma Kalache: “Quando a gente vivia até os 50 ou 60 anos, num passado recente, a vida era uma corrida de cem metros. Hoje a vida é uma maratona.”

Estudar e compreender a velhice, não só a própria como a dos outros;  identificar quem somos e, se jovem, quem seremos, se vivermos bastante, é tarefa difícil e desafiadora. Rubem Alves, sempre perspicaz, lúcido e com humor, questiona o uso da palavra idoso… Diz o inesquecível escritor e psiquiatra: “Idoso” é palavra que a gente encontra em guichês de supermercado e bancos (…) Recuso-me a ser definido por supermercados e bancos. “Velho”,ao contrário, é palavra poética, literária. Já imaginaram se Hemingway tivesse dado a seu livro o título de O idoso e o mar?” Comecei a rir e pensar no pior: e se fosse O de melhor idade e o mar?…

                       O médico Karache difunde um termo incomum, gerontolescência, e explica: “Daqui a 15, 20 anos vamos pegar o dicionário e ler o que é gerontolescência da mesma forma que lemos hoje o que é adolescência. São cinco, seis anos, a partir dos 55, 60 anos. Você não quer as coisas que queria antes. Estou liberado, não tenho filhos pequenos, não tenho que pagar universidade, não estou preocupado com carreira. Chega um momento de liberação que você quer pôr essa energia para fora e continuar contribuindo para a sociedade. A definição etária  cronológica é muito pobre para esse momento.”

O Brasil é um país que anda a passos largos para ter, em breve, elevado índice de idosos (ou velhos, como adverte com humor Rubem Alves). Os jovens, que   sonham viver muito, não podem, nem devem esquecer a condição básica para bem envelhecer: saber bem viver!  A preparação para a “Olimpíada da Velhice” é exigente, supõe um bom projeto de vida. Estamos, como país, andando morosamente… Há muito discurso e pouca prática no tornar o Estatuto do Idoso uma realidade. “A ideologia do envelhecimento ativo” é não só inspiração, mas um bom roteiro de vida.

SEM COMENTÁRIOS